sexta-feira, 1 de maio de 2009

DOCE-PALAVRA



Uma concha na mão,
O caldo ao lado;
Na lateral, a contramão.
Não tendo, à vista, nenhuma caldeira
Nem fumaça em profusão:
E o que importa o continente,
Se, ilha, há caldo tão à mão?
Se brilha caldeirão?
Sibila adivinhação?
Então,
Se tudo isso à mão,
Se, ao lado, aquilo,
Qual a conclusão
Que se pode tirar,
Como concha metida nessa investigação?

Derrama-se o caldo
Porque, aqui, a lógica
Não é bem-vinda não.
E por que ela meteria
(como é metida essa lógica!)
Sua colher nesse caldo,
Derramando o já confirmado,
Mas que, nem por isso,
Isso de (se) derramar,
Não anda ao contrário,
Desfazendo assim a confusão?

Como num transe de passagem,
Num transporte, o caldeirão,
Cedendo aos movimentos do tempo,
Deixa cair pela bordas
Tanto do seu caldo,
Que a mão tenta repor no continente.
Porém, quente o conteúdo,
Retrai-se a mão,
Traindo nesse ímpeto
Uma improvisada decisão.

Se pensasse, a concha
Seria uma solução
Para não queimar a mão,
Porque, derramado o caldo,
Melhor é apará-lo embaixo,
Com um prato em posição,
Fazendo deste um novo continente.

Terra à vista, cisco nos olhos,
E eu metendo colher inapropriada
Nesse conteúdo desfigurado,
Nítidas palavras já apagadas!






quarta-feira, 1 de abril de 2009

OUVIDOS DE MERCADOR PARA UMA CARAVANA QUE NUNCA VAI PASSR

Não ouvi você chamar.

Sei,

Você não me chamou.

Mas eu insisto:

Não ouvi você chamar.

 

Não,

Você não pode ter-me ouvido

Porque permaneço

Em silêncio total,

Esperando você chamar

E não quero

Que qualquer ruído

Chame mais minha atenção

Para nada que não seja

Tudo o que desejo:

E que é ouvir você me chamar.

 

Ainda insisto!

Não há absinto nem olhar triste,

Não somos poetas, como chamar,

Nem aqueles que fazem poesia

-como se chamam?-

e a fazem sem chamar.

Não há solidão nem lágrima recolhida,

Não somos acrobatas, como chamar,

Nem os que fazem piruetas com o risco

-como os chamar?-

sem chamar.

 

Não ha mais o que não-ser,

Nem somos poetas, como chamam,

Nem aqueles que não-são,

Sem chamar.

 

Continuo sem barulho fazer,

Esperando por você me chamar:

Eis aí todo o barulho que quero escutar.

 

Por que,

Então,

Em vez de não ouvir você me chamar,

Não te chamo eu

-será que vais me escutar?

 

Você!

Você que fala sem (me) chamar,

Você que cala sem (me) chamar

E vive até sem chamar,

Fazendo com que

A minha vida seja

A eterna espera

Do teu chamar.

E você é só a tortura,

Sem chamar,

Sem instrumentos medonhos

Sem interrogatórios,

Sem chamar.

Você me tortura calando

O teu chamar

E deixando para mim

A dor de escutar,

A todo instante,

Em todo e qualquer lugar,

Você (me) chamando,

Sem jamais me amar.

 
CHICO VIVAS

domingo, 1 de março de 2009

TOBOGÃ

 

 

 

De(s)cida!

 

Mas, isso não é uma exortação,

Supondo, a vir,

Uma encruzilhada,

Carregada dos mistérios da hesitação.

 

Se digo: descida!,

É porque abaixada mão.

De(s)cendo!...

Mas, isso não é prenúncio

De canhoto desenho de minha mão,

De uma árvore de gerações.

 

Se digo: descendo!,

É porque não é descida a mão,

É ainda indecisão

Sobre se se deve descê-la

Ou, sem obrigação,

Se se deve apenas, descendo,

Jamais alcançar o coração,

Que por aí para, se,

Crendo-se que já se chegou ao ponto,

Quando, vírgula a vírgula,

Há coração ao longo de todo o corpo,

Mesmo naqueles sem muita extensão,

Quase a se confundir, esse corpo,

Com o espaço estrito do coração,

Com a vantagem de que,

Se no coração real,

Se poético, de todo, ele não for,

Há batidas

- perigo nos cruzamentos -,

Nos outros, toques diversos

E ais tão variados,

Quanto os sons de campanhia:

E quem dela só conhece um dim-dom,

Só sabe do corpo um tic-tac,

E do coração, repetido baticum.

 

Então, está decidido!

Não se desde, em definitivo:

Descendo sempre estará a mão;

E se essa eternidade terminar,

que suba,

Que se encontre um meio,

E se encontrando a metade,

Que nem precisa se ajustar

A outra parte, com rigorosa exatidão,

Junte-se-as:

Se colar, colou;

Se não grudar, cole-se ainda mais;

Se incomodar, desista não!;

Se só for conforto, que não se incomode

Com essas partes concertadas,

Porque a orquestra que toca

É mais do que o arco no violino,

Mesmo que as haja,

orquestras que são,

 só de cordas.

 

Porém, há-de se chegar a um ponto

Do qual não se quererá mais sair,

Nem subir, mesmo que, sim,

Que isso signifique entrar no coração,

Nem descer, mesmo que

Abaixar-se seja a solução.

 

Se se chegar a esse ponto,

Não haverá volta,

Mas há verso,

O que pressupõe o anverso,

E se for um cubo,

Seis faces de fora,

Meia-dúzia adentro.

 

Com que cara digo tudo isso!

 

Logo eu, tão quadrado,

Com uma única face

E um verso improvisado,

Já que quatro são só os lados

De uma mesma moeda.

 

Quando descia, descendência,

Ou será (in)decência, quando abaixava?

Ao subir, subida experiência,

Sempre o coração por lá,

Ou será mera ambivalência?

Alto e baixo são somente

Os extremos a que chegamos

Para atingirmos um meio:

E mesmo sabendo que há

Fora dele um mundo inteiro

De face de versos a se pesquisar,

Quem aí ficar

Como se um porto – já não parto,

Como se asas – já não voo,

Como se pés – já não mãos,

Como se todo coração

Fosse esse ponto mediano

Que não sendo tão alto,

Que não sendo assim tão baixo,

É a profundidade em pessoa.

 

Ter chegado a este ponto

Foi um êxito?

Hesito em dizê-lo:

Eis mais uma das minhas indecisões.

 

CHICO VIVAS

domingo, 1 de fevereiro de 2009

CANTAROLAR

MySpace Comment




Lá...será?
E aqui...é ser?
Laçará!
Lá serei.
Anelei.
Anel é lei.
Anelará lá-rá.
Uma canção lançarei,
tendo como refrão
não um lá-rá-lá-rá
convencional,
mas um será
que não será
que serei
ou um serei
que lá será,
ou mesmo cá
– tomara que em todo lugar –
como um laço,
uma armadilha
para as línguas
que não mais esquecerão
o dito refrão.

Eis aí o sucesso
que sempre anelei,
como um anel
de ouro de lei
que do dedo,
que do anular,
jamais retirarei,
como se casado,
larari-larará
será?

Será que aqui eu serei
casado
ou será
que aquiescerei
em só ter o anel
sem compromisso,
a não ser-serei
com a fama que me traga,
trá-lá-lá,
o sucesso do refrão
que lançarei
lá,
onde for,
e cá,
onde isso será?

Laço,
mirando o sol.
E laçarei.
E laço o sol
como se fisgasse um anel,
confundindo, tolo,
com ouro
o que é só armadilha,
e que se puser no dedo,
arderá,
arderei,
faltar-me-á ar,
e quem me o dará?
em quem me mudarei?
e, mudo, com hei
se suportar,
trá-lá-lá,
o refrão da canção,
esse laço do lá...serei?

Assim, com dedo assado,
com sol no dedo,
no todo cozido,
sem ouro, seu tolo,
que sucesso serei?
a não ser – serei? –
que que-será
seja lançado como meu,
lá, onde ninguém saiba
das minhas armações,
e também cá,
que sucesso tenho de fazer
tanto aqui como acolá, lá-lá
e em tudo lugar,
como sempre anelei,
até fugindo à regra,
contrariando a lei,
pondo o anel indicado
no indicador,
deixando meu anular
a ver navios.

E tanto quero a fama má-má.
E quero mamar, pá-pá.
Quero fama das boas
e quero, na boa, também a má,
desde que eu possa mamar,
como se tivesse uma Fafá
à minha inteira disposição,
sem precisar laçar,
sem sair do lugar,
lugar que é meu,
se não por direito,
se não por lei,
porque, enfim, o anelei,
e isso (me) basta.

Besta sou, se penso,
mesmo que besta não possa pensar
e apenas mame por mamar,
que um refrão achado
e repetido a mil
(serei vil?)
logo se converterá
num sucesso capaz
de me dar, no mínimo,
o que sempre anelei:
anular,
sem ter de pagar
nada do que desejei.

E tudo o que desejei
nada mais é do que
até aqui disse anelar.

Não quero anel.
Não quero me casar.
Quero só ter o poder,
dentro da lei,
lá e cá, onde estarei,
de não esquecer
o que significa
não deixar de lembrar,
como um insistente refrão,
sem mais lá-rá-lá-rá,
caindo num laço de verdade,
na armadilha do sonhar.

Mas, lembrar (lá-lá) o quê?
O que será
lá...será ou laçará?

Não importa,
contanto que esse lá-rá-lá-rá,
como um lá-ri-lê-rê qualquer,
leve-me da qui,
de onde estou, estiver,
para lá, trá-lá-lá,
onde estejas já-já,
onde estiveres ainda,
porque o tempo, quando já,
é presente na certa;
quando ainda,
é só capacidade de lembrar.

CHICO VIVAS

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

GI BEE

 
Tiro.
Enfio.
Tiro Henfil.
E não retiro mais,
 Ao contrário até, Eu re-tiro,
 Sem, no entanto,
 Me ausentar.
Refil Sem me trocar,
 Sem me tocar.
 Enfio E tiro,
Henfil
E tiro Como num quadrinho: Bum!
 Filho-da-mão,
 Hem, fio!
Toma tua linha, fio
 Ou então Eu te enfio
 Na cara, Capadócio,
Um tapa,
A sangue-frio.
Tiro,
Enfio.
E já ninguém me olha,
 Tomando-me por atirador,
Sem me tomar Por profissional enfiador,
 Sequer um amador.
E eu esfrio,
Mesmo sentindo
 Ainda ter
 Tanta bala na agulha,
 Tantos cabelos no pente,
Tanta linha de costura,
 Tanto fio, hem, mão!
E se tiro tanto,
E se enfio muito,
É para que,
De tanto tiro,
Me enfiem,
Nalgum lugar,
Fora do meu próprio espaço,
 Onde eu possa,
Vindo isso mesmo a calhar,
Depois de tantos pores,
Ver um sol nascer,
Quadradinho,
Como (n)um quadrinho,
Um minúsculo,
Como se pintado,
 A dedo,
Na unha,
Bem rente à carne,
 Com a mestria de quem,
 Já posto o sol,
Ainda enfia
Sua linha,
Como bala,
 Na agulha,
Como quem,
 Mestre em tiro,
 Atira a linha
Num mar-alvo
 E acerta na bala,
 Uma esquecida,
 Ali atirada,
Cuspida pela boca,
Arma de fogo,
Perdido o gosto
 Por tanto chupar
 Seu sabor artificial,
Tal qual
Estas linhas aqui.
Refazê-las?
Refi-las.
Mas, cansadas de esperar,
 Debandaram da fila.
 E eu, que fiz?
Tiro, claro!
Enfiei-lhes bala.
Cuspi-lhes fogo.
Da minha própria boca, porém,
Língua de artifícios,
Só linhas,
Mais e mais.
 Então, descubro
Que durante todo esse tempo
 Fui a isca,
Enfiado,
Atirado,
Mas jamais mordido.
É ou não é
Para (se) dar um tiro?!
 

sábado, 1 de novembro de 2008

ESTILHAÇOS







REVEJO OS VERSOS

E VÊM-ME À CARA AS FACES:

CORRO AO ESPELHO

(EU QUE CORRO DELE),

MAS, ESPERTO, ANTES DE ME VER,

QUEBRO-O.

E JÁ ME PRECAVENDO

CONTRA UM COMPLÔ DOS CACOS,

UNINDO-SE CONTRA MIM,

ESCAPO.

PORÉM, NA RUA, HÁ LOJAS,

E NAS LOJAS (ONDE ALOJAS?) HÁ VIDROS,

E MESMO QUE NÃO SEJAM ESPELHOS,

FAZEM-ME FACE,

E EMBORA NÃO FAÇAM VERSOS,

SE DIVERTEM EM ME OLHAR:

QUEBRO-OS,

SOB OLHARES CURIOSOS

E MAIS O DE UM ATENTO SEGURANÇA

QUE ME PRENDE PELO BRAÇO

E ME LEVA PRESO.

NA SALA: PEQUENA.

NO MENOR: SILÊNCIO.

NA MUDA SÓ HÁ,

COMO UM ESPELHO,

A MOLDURA QUADRADA

POR ONDE ENTRA O SOL

- E JÁ É DE SE IMAGINAR

QUE UMA ARQUITETURA ASSIM

SÓ PODE MESMO TER SAÍDO

DA FANTASIA QUERENDO SE ESPELHAR.

ENTÃO É QUE DESCANSO,

AGORA QUE NÃO CORRO MAIS O RISCO

DE DAR DE FRENTE COM MINHA FACE

NEM DE CARA COM MEUS VERSOS.

ENGANO MEU!

LOGO, NAS PAREDES RABISCADAS,

POR OUTROS, ANTES DE MIM

(QUEM SABE SE CULPADOS

POR CULPA À MINHA SEMELHANTE),

ACHO ESTROFES INCOMPLETAS

DE SAUDADES JÁ PARTIDAS,

DE PARTIDAS TÃO AGUARDADAS;

LÁ, ACHO UM NOME DE HOMEM

CRUZADO COM UM NOME DE MULHER

E FICO A PENSAR

O QUE PODE TER SAÍDO DALI

PARA ESTA CELA ESTAR TÃO SÓ.

LEIO TAMBÉM DE HOMEM O NOME

APROXIMANDO-SE DE NOME DE HOMEM:

E DAÍ?

QUEM PODE TER ESTADO AQUI

PARA DEIXAR ESTA CELA ASSIM TÃO SOL?!

LEIO AINDA NOMES DE SANTOS

E TAMBÉM NOMES DE QUANTOS

O NOME PRÓPRIO SERVE PARA APROXIMAR.

LEIO PLANOS DE FUGA,

MAS NÃO OS ENTENDO

PORQUE NÃO SEI LER PARTITURAS

- E ATÉ QUEM OS ESCREVEU JÁ PARTIU.

ACHO, POR FIM,

TODOS "ESTES" NOMES

APELIDADOS DE PALAVRAS

QUE ATÉ AQUI ESCREVI,

E AINDA MAIS ALGUNS,

COMO SE ALI PUDESSE LER

O QUE O DESTINO ME RESERVA,

SEM PODER ANTECIPAR

SE SAIO DAQUI OU SE HEI-DE AQUI FICAR:

É COMO ENCONTRO A CHAVE DO ENIGMA

QUE TERMINA POR ME ATERRORIZAR,

JÁ QUE A RESOLUÇÃO DOS MEUS PROBLEMAS

ESTÁ EM SUBSTITUIR AS PAREDES

POR ESPELHOS,

E NO LUGAR DO ESPELHO FIGURADO,

POR ONDE SE CÔA UM POUCO DE SOL,

AÍ, SIM, ENTRARÁ A PAREDE.

FICO SEM AR!...

E QUE NÃO SE PENSE QUE POR CAUSA DOS ESPELHOS

QUE ENTÃO HÃO-DE ME FITAR,

MOSTRANDO-ME AOS QUATRO VENTOS,

EM VERSOS, EM FACES;

É POR CAUSA DAQUELA PAREDE CEGA

QUE O LUGAR TOMARÁ

DAQUILO QUE QUANDO ENTREI AQUI

CHAMEI DE ESPELHO

E ERA SOMENTE UMA JANELA

PARA O QUADRADO MUDO OBSERVAR.

É NELA, CEGA, QUE VOU ME MIRAR.

EU, PAREDE, RESISTIREI

OU HEI-DE DESMORONAR?

NUNCA MAIS REVEJO VERSOS

NEM COM OS DE OUTROS VOU ME IMPORTAR.

O DESTINO?...SABE-SE LÁ!


CHICO VIVAS

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

LÁTEGO



A dor do meu flagelo.

A dor e o meu flagelo.

O flagelo da minha dor.

Dor e flagelo: infinito.





Se flagelo e dor: sem fim.





O chicote de couro estreito

em tiras bem cortadas

risca minha carne, atrás.





Dou as costas à dor

e encaro de frente o flagelo:

sem ver meu rosto,

pois não há espelho por perto

e, de longe, vem a dor,

de há muito esse flagelo.





Dou-me dores:

lanço por sobre os ombros

a estreiteza do meu desejo,

atiro-o longe, perto de mim,

seguro firme o chicote...

e lá vai ele,

fazendo zoada na minha carne,

lacerando-a,

um som que não repito

em palavras dolorosas

porque não aprendi a escrever

o sinônimo do meu flagelo.





Antônimo também não sei:

não conheço o contrário da dor

nem o verso do flagelo;

conheço só o couro estriado,

já marcado, escurecido,

de tanto minha carne buscar;

e esta, estriada,

ganha desenho singular:

longas retas cruzando-se

em xadrez irregular

em que dama caberia,

e um rei talvez.

Mas tudo isso é o interlúdio

entre a última visita do chicote

e esta que aqui vai:

Ah!...já foi!





Não posso saber, assim,

sem espelho ter por trás,

e sem olhos para meu verso ver,

o desenho que registro

na carne, nas costas, na dor.





Se um braço se cansa, outro.

Se outro se cansa, outro ainda.

Afinal, quantos abraços são?

Afinal, não foram os braços

que infligiram esse flagelo?

De quem os braços?





Mas de que adianta isso nomear,

se é minha a dor,

se é meu o chicote,

se essas costas-planície,

desertos largos,

são minhas?

são meus?





Nesse silêncio do meu pensar,

pois não sei falar em silêncio,

e peco por falar sem pensar,

nesse nada de vozes,

só a voz do couro se ouve,

e diz sempre o algo,

o mesmo, o igual,

aquela vozinha cortante,

grave, aguda, sem tom,

gravando seu som na minha carne,

agudo acento da minha dor:

porque dói!





O suor do meu rosto avança

e deságua no flagelo de revés,

misturando sal e vermelho,

manchando de sangue o branco.

Há-de passar.

A dor há-de passar.

Eu hei-de passar.

Só que talvez bem antes, porém,

dessa dor, desse flagelo acabar.






CHICO VIVAS

sábado, 6 de setembro de 2008

A DISTÂNCIA QUE NOS SEPARA



APROXIMOU-SE...

OLHAVA-ME CADA VEZ MAIS,
COM CRESCENTE ATENÇÃO,
EM TODOS OS LADOS RETOS
DO MEU ROSTO QUADRADO,
E SORRIA NESSA SUA BUSCA
COMO SE UMA SURPRESA ANIMASSE
SUA VIDA ROTINEIRA.

APROXIMOU-SE...

PASSOU O DEDO INDICADOR
COM FORÇA TÊNUE, MAS DECIDIDA
SOBRE MINHA FACE ESQUERDA
E OLHOU, DEPOIS, SEU DEDO, DIREITO,
FINGINDO NÃO CRER NO QUE VIA:
QUE ERA O DEDO QUE LHE VOLTAVA
COMO QUANDO FORA A MIM.
EXPLICO:
ESPERAVA ARRANCAR COM SEU TATO,
DA MINHA PELE, NO ROSTO MAÇÃ,
A TINTA QUE JULGAVA COBRI-LA,
DE TÃO VERMELHA QUE ESTAVA.
ESFREGOU O DEDO-INSPETOR
NO POLEGAR A SEU LADO
COMO PARA TER CERTEZA
DE QUE NENHUM RESÍDUO TRAZIA:
DE ONDE, ENTÃO, AQUELA COR?
VERGONHA, CRIA, EU NÃO TINHA - ME CONHECIA;
DO NORTE, BEM NORTE, DE ORIGEM NÃO SOU;
CHAMA ALTA POR PERTO NÃO HAVIA,
NEM PRÓXIMO A UM FORNO QUENTE ESTOU
(PROVA DE QUE NÃO ME CONHECIA
TÃO BEM QUANTO PENSAVA).

APROXIMOU-SE...

E ATRIBUIU AOS MEUS OLHOS, MAIS DE PERTO,
UM RUBOR BEM MAIS INTENSO
E ATÉ ADMITIU
QUE A DISTÂNCIA JÁ LHE TURVAVA
AS VISTAS PARA O VERMELHO.
PESQUISOU, FAZENDO-ME
SEU OBJETO DE ATRAÇÃO.
MOLHOU A PONTA DO INSPETOR
NA LÍNGUA INDICADORA
E PASSOU-O SOBRE MIM,
DE NOVO,
COMO ANTIGAMENTE:
E MEU VERMELHO AUMENTOU,
COMO ANTIGAMENTE,
DE NOVO,
MAS NADA DE TINTA DALI RETIROU.

FOI-SE...

SE HOUVESSE SE VIRADO, E NÃO O FEZ,
TALVEZ ÁRA EM SAL NÃO SE TORNAR,
TERIA VISTO, A CADA PASSO QUE DAVA,
MINHA FOGUEIRA SE APAGAR.

DE COSTAS, PARA MIM,
APROXIMAVA-SE...
...CADA VEZ MAIS DE LONGE.

CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

INVIOLÁVEL



Calei.

Emudeci.

Fechei-me em mim.

Vesti roupa apertada.

Casei todos os botões.

Levantei a gola.

Desci a bainha.

Apertei o cinto.

Entrei numa caixa

e ela foi lacrada.





A caixa, mandei pôr num tonel,

que foi tampado,

que foi vedado.



O tonel, ordenei

que um barco levasse;

e ao mar,

nada mais pude ordenar.

Mesmo assim,

o barco chegou ao seu lugar:

uma montanha isolada,

com uma gruta estreita,

do diâmetro do tonel.



Empurraram-no para dentro

e, com pedras por fora,

separei-me do mundo.



O coração que, apaixonado, batia, dentro da roupa,

dentro da caixa,

fechada num tonel,

escondido num extinto vulcão,

batia alto.



Reverberava na minha nudez,

no meu silêncio sepulcral;

agigantava-se em seu soar;

e tão forte já ficava,

que o soar de trovões

era como um coração...

que apenas bate...

sem paixão.



Não suportei: ensurdeci.

E ao não mais ouvir

o meu coração tilintar,

duvidei de mim.

Naquele ermo em que me meti,

nada mais vi

e duvidei de mim.

A falta de ar tirou-me o olfato

e duvidei de mim,

Minha boca seca

gosto nenhum sentia

e duvidei ainda mais.

E como ninguém me tocava,

descri de tudo.



Em nenhum momento, porém,

deixei de acreditar, de coração,

naquela minha paixão.

E na cabeça já quase vazia,

um pequeno ruído resistia,

como um coração a bater:

e quanto mais eu pensava,

mais seu som aumentava

até beirar o insuportável.





Quis romper os meus invólucros:

quis sair da montanha,

sair do barco,

sair do tonel,

sair da caixa

sair da roupa apertada -

sem cinto,

sem bainha,

sem gota,

sem botões -,

quis sair de mim.

Mas, temi que, de volta à vida,

meu peito,

mesmo cheio de paixão,

não me fizesse ouvir mais nada:

e então...

e iria duvidar de quê?






CHICO VIVAS

quarta-feira, 2 de julho de 2008

SUEÑOS



Uma gola rendada, espanhola,
A Velásquez ou a outro pintor,
Emoldurava o rosto pálido, lascivo,
De boca vermelha como sangue
E não era romã, era pele louçã,
Tez de louça, porcelana sã.

Olhos lhe rasgavam como se fora
Um vidro trincado em simetria.

Se arrancasse a gola gomada,
Nada na face me despertaria:
Nem olhos gateados, quando abertos,
Nem boca mordida, quando fechada,
Nem a cútis macia, quando seca
E não menos suave, se molhada.

Se Velásquez fosse, no máximo,
Nome antigo e herdado
De um imigrante espanhol
Que espalhara seu nome próprio sem critério
Numa longa descendência bastarda,
Nada me diria aquela gola,
A não ser do desconforto da moda,
E nem roubaria minha atenção
A doentia palidez
Num contraste de dor
Com a boca encarnada.

Se jamais encostasse meu rosto
A um outro, seco ou molhado,
Nada disso me faria pensar
Em uma gola enfeitada
A me remeter, sem hesitar,
Para rendas mais íntimas.

Pobre como sou, não viajo a “espanhas”,
Não visito exposições de “graças”
Nem compro livro de “artes”.
Assim, pobre de imaginação como sou,
Para mim, uma boca só isso é,
Qualquer tom que ela tenha.
Uma pele jovem ou enrugada
É macia ou de áspera sutileza.
Olhos quase nuncavejo
-se nem viajo!-,
Pois fecho os meus, trincados,
Trancado eu neles como estou,
Trancadas neles como estão
As lembranças, as saudades,
As memórias, as recordações
De antigas aulas de pintura:
De nobres, de reis e cortesãos...
E de um homem, quem sabe,
Com um pincel numa das mãos
A pintar infanta e anões.


CHICO VIVAS

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Arquivo do blog