quarta-feira, 1 de junho de 2011

ROUPA DE CAMA



O lençol fino de seda gasta
cobre o corpo lasso e opaco:
o tal pano é tão gasto
que o brilho do lado sedoso
parece emergir direto do corpo
ali deixado
e já tão frio
e já tão gasto
que quase se confunde
com o lençol tecido
com fios emaranhados
das linhas inescritas
das urdiduras inexpressas
das tramas natimortas.

De súbito, um movimento:
mexe-se o pano,
anunciando a estreia,
ou mexe-se o corpo,
dando sinal de vida?

Foi só um vento indiferente
que avançou ao comprido
do pano,
do pano que recobre o corpo,
provocando ondas de seda,
como no panejamento
de um santo em pose clássica,
em êxtase barroco.


Um vento, agora apressado,
levanta o pano
como se olhos bem curiosos
não se contentassem
com o espetáculo à mostra
e à vista do mistério,
invadissem as coxias.

E não é um corpo apenas que jaz
sob a fina coberta de seda:
são dois.
Tão gastos,
tão lassos,
cansados de serem um só.

Ao terceiro sinal,
não o começo que se espera,
mas o fim:
é esperar para (não) ver.




CHICO VIVAS

domingo, 1 de maio de 2011

UM POUCO DE JUÍZO AFINAL



Meu peito plano, sem curvas
(ou curva, sem planos),
Não sei como dizer,
É como uma câmara ardente
Que guarda um lado sinistro,
Um coração já morto,
Rodeado por círios candentes
Em sua frieza espectral,
Lançando para o alto
(o que será que querem alcançar?)
Chamas curtas
E que não iluminam como devem
O que jaz sem vida,
E servem só para realçar
Os estranhos contornos da morte certa.

Embalsamado e só,
Sem especiarias em volta
Que recendam a oriental torpor,
Nem com riquezas faraônicas
Que reflitam (n)um metal polido
A luz escura do ambiente;
Também não há alimentos,
Porque esperança já não se tem
De que se ressuscite com fome.

Não há filas de despedida,
E as poucas lágrimas que se “ouvem”,
Soam distantes como se
A carne magra quase em ossos
Isolasse a vida lá de fora,
Sem deixar penetrar naquele dentro
Um ruído que não lhe alteraria a dor.

Quem é, não sei,
Que vigia esse horror
E não deixa a vela terminar
E já põe outra em seu lugar,
Criando essa estranha imagem
De um sol num poço vazio.

Para que luz?
Se rígido e já sem cor,
Dorme sem sonhar
Um coração morto
Que nunca mais há de acordar.
Para que todo esse ardor venerável
A um ídolo desmascarado
Que sucumbiu sem vitórias
E nenhuma mulher de verdade amou?

Pois que o enterrem de uma vez,
Sem louvor, em cova rasa!
Atirem-lhe terra só um pouco
E não lhe marquem com um sinal da cruz!
Que lhe nasçam urtigas,
Urzes, ervas daninhas!
Que pisoteiem esse terreno baldio,
Sem saber o que ele esconde,
Os ágeis pés de crianças jovens
(há as velhas!)
Numa correria vibrante!
(e se fizer noite de repente,
um susto as despertará,
como se assombração presenciassem:
em desabalada correria contarão
ter um fantasma encontrado,
e tremerão com certa alegria
por poderem ter sido testemunhas
dessa cena do outro mundo).

Um dia, mais à frente,
Aprenderão todas as crianças,
Para seu próprio desencanto,
Que existe fogo-fátuo,
Que é combustão espontânea
Dos gases que emanam da terra
Decomposta em sua matéria orgânica.
E já nessa idade em que
Ávidas estarão por amar,
Não quererão acreditar,
Se surgir alguém a lhes narrar,
Que fincado ali estava
Um peito pouco casto,
Tendo ao centro, mais à esquerda,
Um coração completamente morto;
E que as chamas em que pequenos viram
Não é a ciência que explica:
Era só um ou outro círio ardente
Que, curioso, escapou
Da sala fúnebre em mim
E pôs sua chama para fora,
Como um submarino submerso
Tem saudades de fora do mar,
Gostando mesmo é de mergulhar fundo,
E que lança olhos para a terra
E aí encontra um cemitério
De crianças todas mortas
E que morrerem sem amar,
Por mais que tenham tido coração.



CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de abril de 2011

QUE TROÇO É ESSE?



Destroço o barco,
E com isso,
Destraço a linha,
Desfazendo a rede
Que me prenda ao mar:
Sem âncora porque
O que me prende lá
Não me agarra pelo pé,
Mas toma-me,
Mãe que não é,
Pela mão, pela minha,
Como se essa rede fosse uma linha
Atada à minha, à mão.
Apesar de tudo desfeito,
Dito e feito como não disse direito,
Caio na rede,
E de boca aberta,
Sem uma palavra,
Como se todas elas
Ou naufragado tivessem
Ou, por outro lado,
Com a boca cheia d’água me deixado tivessem.

Que saudades de um anzol
Que me capte,
Mas que me fira,
E não que me pegue pelo colo
Como se me acalentasse em seu seio.
Um ferro retorcido,
Uma cedilha exilada do seu cê(r),
Como uma interrogação à qual
Falta um ponto
Que não lhe faz diferença;
Mesmo que, retorcido,
Enferrujado o cê,
Carcomido o ser,
Indiferente a interrogação
De um ponto de exclamação,
Sem poder se definir
Se surpresa!
Ou se não...ser?

Que saudades de um só,
De um sol que é sempre assim!
Que saudades de mim,
De um assim que se pareça comigo,
Ou de um assado ao sol,
Ali, solitário!

Do mar não tenho saudades:
Também, não sei nadar!
E assim,
Teria saudades de quê?
De morrer afogado?
De naufragar de medo?
De me debater sem oposição?

Essa é a diferença
Entre mim e quem,
Quem eu nem sei,
Que saiba mesmo viver:
Eu, por não saber nadar,
Não vou ao mar,
E assim saudades dele não terei
(e que me custava dizer
que tenho saudades do mar,
mesmo que durante toda a minha vida,
temesse nele entrar,
ou que tenho saudades do mar,
e das minhas entradas narrar
todas as minhas saídas,
ainda que nunca na vida
tivesse aprendido a nadar)?
Ele, esse quem
(e se quem eu sou não sei,
que dirá saber quem é
esse outro que não eu!)
que nadar sabe muito bem,
poderá dizer que não sente do mar saudades
porque não sabe nadar,
sabendo muito bem o que diz,
ou pode contar as aventuras
pescadas ali mesmo no mar,
e todas elas passadas em terra.

Qual é a diferença?
É que eu só digo o que sei,
O que quer dizer
Que falo muito...pouco.
É que eu só sei falar
Do que realmente me aconteceu,
Enquanto “quem”, quem eu não sei,
Diz pouco, mas pode dizer
O que viveu o até como morreu,
E isso depois de morto,
Ou diz muito e nada diz
De suas aventuras no mar,
Porque para que dizer
O que realmente aconteceu
-acontecido está-,
Quando há tanto a se falar
Do que nunca há de acontecer,
Como, por exemplo,
De um mar em que não se nada
De uma terra em que “se tudo”,
De um só que são muitos,
De um só que são muitos,
De um só que são muitos,
De um só que são tantos,
Que dizer quantos são
Não faz a menor diferença,
Já que o barco destroçado está,
A linha destraçada também.



CHICO VIVAS

terça-feira, 1 de março de 2011

DE ALTO A BAIXO





Frágil é só o forte quando se quebra.

Amar é como uma onda forte quando se quebra.
E se é só,
é como um mar inteiro que se quebra,
lançando alto estilhaços de aço
que desenham no ar formas exóticas,
ganham vida e voam como pássaros estranhos.

A saudade é a dor dessa ave
que do alto olha o mar que se quebrou
e por mais desenhos que faça no ar,
não há sombra sua no mar,
porque o mar é frágil,
apesar de toda a onda que tira
de ser devastador,
de deixar saudade.

Mas nem sempre foi assim.
Só assim é agora.
Só é agora porque se quebrou.

Onde os pássaros de estilhaços,
Estilhaços do aço
Que um dia foi mar?

Onde encontrar um pouso,
se sombra jamais hão de encontrar?

No alto de uma montanha forte,
que não sei como fazer se quebrar,
há uma poça de água cristalina,
água do céu caída,
com a mesma humanidade da chuva,
caída ali sem nunca ter chegado ao mar.

Assim digo, mas bem pode ser
que esse mar, frágil,
um dia tenha chegado lá,
lá no alto da montanha firme e forte,
deixando, como saudade eterna,
uma poça de água,
cristais de saudade
que não seca,
ainda que, tão alta,
mais perto do sol esteja.

Essa poça projeta
uma sombra no sol
e se contenta em ter ido tão alto,
sabendo que mais não virá,
como descer ao nível do mar,
do mar que era forte,
e se quebrou;
que ao se quebrar,
mais frágil ainda ficou;
o mesmo mar que lanço
bem alto seus estilhaços de aço
e que em novas aves se virou.

Cabe mesmo uma poça no mar?
Caberá?
Pode uma poça se apossar do mar,
como crê ter se apossado do sol
só por ali uma sombra de nada deixar?

Amar é como uma poça que é maior que o mar.

Saudade é poça no alto da montanha,
sem nada saber do mar.
Mas com a irresistível sensação
de que se de aço o cristal se tornar,
e se depois o cristal se quebrar,
lançando estilhado na poça de aço
e esses pedaços de aço ganharem o ar,
como os pássaros vão voar?


CHICO VIVAS

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

RENTE À CARNE





TOMO NAS MÃOS UMA ACHA DE LENHA.

DA LENHA, COM AS MÃOS,
ARRANCO UMA FARPA,
VERDE.

A LENHA, PORTANTO, A FARPA.

COM CUIDADO, METICULOSO,
ENFIO, AVERMELHANDO-ME,
A FARPA POR BAIXO DA UNHA,
NA RÓSEA CARNE QUE APARECE
COM A UNHA APARADA,
SENSIVELMENTE RASA,
DOLORIDA CARNE.


DE VERMELHO, ARROXEIO-ME,
MAS NÃO PARO
DE INTRODUZIR A FARPA
TIRADA À ACHA DE LENHA
VERDE:
A LENHA, AGORA SANGRENTA FARPA,
JÁ QUASE SUMIDA
SOB A UNHA APARADA.

OLHO A LENHA
E VEJO QUANTAS FARPAS,
E VEJO QUANTOS DEDOS,
EM CADA UM, UMA UNHA,
SOB ELAS, APARADAS,
RÓSEA CARNE,
E AVERMELH0-ME.
E JÁ TENDO EXPERIMENTADO
DA ACHA DA LENHA VERDE
SUA FARPA QUE ME SANGROU,
PASSO IMEDIATO
PARA A ROXA COR,
MESMO QUE SOB A UNHA
SÓ HAJA AINDA UNICAMENTE
UMA FARPA
TIRADA À ACHA
DA LENHA VERDE.

QUE QUERO EU COM ISSO?

AFINAL, DA ÁRVORE
DA QUAL ESTA ACHA VEIO,
VIRÁ MUITO MAIS LENHA
PARA SE PÔR NESSA FOGUEIRA
QUE SE ESCONDE SOB MINHA UNHA?

GUARDAREI EM MIM QUANTAS FLORESTAS?

E QUANDO NÃO HOUVER
MAIS NENHUMA UNHA,
NEM MESMO AS DOS PÉS,
ONDE ENFIAREI AS FARPAS?
AS ACHAS?
AS LENHAS?
AS ÁRVORES?
AS FLORESTAS DESTE MUNDO
QUE APESAR DE DEVASTADO,
PRESERVA AINDA TANTAS FARPAS?



CHICO VIVAS

sábado, 1 de janeiro de 2011

BÊ A BÁ DO A B C




Quem me fala não me soletra.
O que me diz eu não escuto.
Se falo, fica atento,
Se soletro, acompanha-me lento.
Põe a mão sobre os olhos e emudece
e aquela lágrima que corre
por um canto, esquiva,
é como um grito que sai
e do qual não se entende o que diz
porque gritos só doem
e a dor só se compreende
de olhos fechados, boca aberta
e as mãos nos ouvidos
para não chorar.


Se ponho a mão sobre os olhos,
apenas cego-me,
e não dói em mim
e nem corre ligeira
qualquer água em gotas.
Falo com a boca o que quiser,
chamo de dor ao que ela é
ou invento sons que não distinguem
o sofrimento do prazer.
E se levo aos ouvidos, espalmadas,
as mãos que aos olhos já foi,
apenas ensurdeço-me,
e ouço só longo o grito dado
de uma dor que soa distante,
e que logo, liquefeita, se desfaz.


Já se falo, conto todas as letras,
as letras quantas eu tenha para contar,
conto e reconto sem cálculo,
verto e reverto sem vazão,
encho uma bacia com o que contei
e despejo a água que chorei
num riacho de que não sei
nada:
onde nasce,
aonde vai.
E quando dele precisar
para cobrir meu rosto ou lavá-lo
ou ainda para confundir
uma gota com tanta água,
ou para quando vier a sede
e encher as mãos que levarei
à boca seca como se
cobrisse os lábios como aquele
que faz assim para nada ver:
o que farei?


Não sei se nessa troca
em que se vedam os olhos para não ouvir,
em que se tapam os ouvidos para não chorar,
o que hei de fazer para beijar?
Talvez levar as mãos à cabeça
e simular, sincero, um desespero.
Um beijo com lábios improváveis
nessa miscelânea de sentidos.
Será ao menos que um abraço
se fará, como de hábito, por um laço
ou esse encontro de cruzados braços
sobre as costas um do outro
é já o beijo tão sonhado,
o beijo não conseguido
com a boca a outra colada?...



CHICO VIVAS

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

DOMINO, DOMINUS, DOMINÓ



SOU UM PROFETA
À ESPERA DE DEUS.
MAS ELE ME ESQUECEU
OU COM OUTRAS CONVERSAS SE ENTRETEVE.

COMO NÃO CONVERSO,
PARA NÃO ME DISTRAIR
E ME DESINTERESSAR DE DEUS,
OUTRO DIA PENSEI, RAPIDAMENTE,
SE NÃO SERIA SURDO
E ASSIM JAMAIS SEREI PROFETA.

MAS OUÇO OUTROS SONS
E ISSO ME CONSOLA:
CONSOLA-ME DA ESPERA DE DEUS
E DE QUE NÃO SOU SURDO.

SE SÓ OUÇO ESSES SONS -
SOM DO VENTO E DO VENTO FORTE,
SOM DA CHUVA E DA TEMPESTADE,
O CHACOALHAR DAS ÁRVORES
E DO MEU PENSAR -,
COMO SEI, OUTRO DIA, PENSEI
SE NÃO SÃO ESSAS AS VOZES QUE AGUARDO
E COMO HEI DE CONHECER DEUS
SE NÃO SEI COMO ELE FALA.

TALVEZ EU SEJA MESMO UM PROFETA,
MAS QUE NÃO SABE ESCREVER
PORQUE NÃO CONSEGUE ENTENDER
A DIFERENÇA QUE PODE HAVER
ENTRE MEU PENSAR E DEUS CONHECER.

NUNCA LI "OUTROS" PROFETAS,
NEM SEI SEQUER SE ELES EXISTEM.
DEI-ME ESSE NOME AO ACASO
E CHAMO ASSIM AO QUE ESPERA.
DEI TAMBÉM ESSE NOME A DEUS
E CHAMO DE ACASO AO QUE SE FAZ ESPERAR.
DEI À ÁGUA DE CIMA PARA BAIXO
O NOME DE CHUVA E ASSIM A CHAMEI,
E AINDA DE TEMPESTADE À SUA IRA.
DEI NOME DE VENTO AO QUE NÃO VIA
E FORTE FIZ-LHE COM A MINHA FRAQUEZA.
CHAMEI DE ÁRVORES ÀS MANCHAS VERDES
E DESISTI DE NOMEAR AS CORES.

COMO SE VÊ, ERREI:
SOU UM DEUS
À ESPERA DE UM PROFETA -
E ESTE FOI MEU ERRO:
TER-ME CRIADO COMO MAIOR,
COMO O TODO, COMO O ÚNICO,
E TER-ME ESQUECIDO DE UM MENOR
A MIM EM TUDO PARECIDO.

QUIS VOLTAR ATRÁS
E TINHA ATÉ NOME PARA ISSO:
CHAMARIA DE HOMEM.

SOU O HOMEM QUE INVENTOU DEUS
E PARA QUE ELE NÃO FOSSE ESQUECIDO,
FIZ-ME O PROFETA QUE O ESPERA.



CHICO VIVAS

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

AS PRIMEIRAS LETRAS

MySpace Comment






E se faltar base,
Faz das costas uma mesa,
Sem nada planejado;
Faz delas um plano
Sem nada preestabelecido,
Um plano levemente inclinado.

E é aí que eu cravo a pena,
Escrevendo como se apenas
Ali fosse a base que me faltava.

E se nessas costas desoladas
A pena falha,
Troco de caneta,
E continuo minha sina,
Anônimo,
Sem assinar embaixo,
Ao pé-da-página,
Já que da letra, ao pé,
Nunca nada se cava.

E por que tudo isso segue
Desse modo enviesado,
Segue assim tão inclinado,
Sem ter estabelecido nada?

É que não se traça uma palavra ereto:
É preciso uma horizontal,
Por mais que me chamem de convencional;
É necessário que as costas
Tenham certa inclinação para tal,
Que mesmo ausente o plano,
Elas resistam inclinadas,
Levemente,
Pois só assim vale a pena,
Ainda que desse jeito possa falhar;
Mas até para isso dá-se um jeito:
Ou se dobram mais as costas,
Dando-lhes desenho de mesa,
Apoiada em pés firmes
(em pés de mesa)
que façam as vezes de pés,
quase ao pé-da-letra,
e aí se risque,
e aí arriscado
a ter dores lombares,
mas se se preferir,
em vez dessa inclinação total,
troca-se de leve
a pena por outra caneta.

Porém, é bom não esquecer
Que esta tem sua natureza
E que uma caneta sempre se submete
À lei da gravidade,
E mesmo que lhe falta atitude séria,
Nada é assim tão engraçado;
É necessária certa posição
Para que a tinta atinja a ponta,
A ponta que é uma esfera;
E então, umedecida a pena,
Se a aponta em direção das costas,
Já que é ali a base de tudo.

As costas fazem de conta que são mesa
E a pele sempre cumpre o seu papel.
Lá vem a pena,
Que nas aves ficam às (suas) costas,
Para escrever seus planos
Com caligrafia inclinada,
Levemente.

E talvez, num momento de distração,
Desenhará formas obscenas
Que logo quererá apagar.

Se a pele é papel,
A ponta do dedo, borracha.
Molha-se-a na ponta da língua
E se a passa na pele sobremesa.

Às vezes, isso deixa rasuras
Como escritas mal feitas
Ou como tatuagem perfeita
Da qual se arrependeu de tê-la feita
E agora se a quer apagar.


CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ATRÁS DAS GRADES





A GAIOLA ALOJA UM CORPO FRÁGIL
QUE MAL SE SUSTÉM SOBRE PERNAS FINAS.
E BEM QUERIA ESGARÇAR AS GRADES
COM MÃOS TRÊMULAS E DEDOS LONGOS,
MAS O QUE LHE RESTA É FICAR
COM O CORPO DOBRADO EM PARTES IGUAIS,
OLHAR O MUNDO TODO RISCADO
EM LINHAS EM PÉ, TODAS UNIDAS;
E COMO PODE FAZER, PENSA AINDA,
DAQUELA JANELA SEM FERA GUARDADA
O PRÓPRIO MUNDO -REDONDO OU QUADRADO-
ONDE LIBERDADE NÃO SEJA SÓ SAIR,
EM QUE NÃO HAJA A OBRIGAÇÃO DE ENTRAR.

E SENTE-SE, ASSIM, UM ANIMAL ESQUISITO
PORQUE OUTRO PARECIDO NÃO CONHECE,
E SUA FALA SE TURVA DE GRITOS
QUE NÃO SAEM DA GARGANTA CALADA.
SABE-SE SÓ E DESEJA CONHECER
SE HÁ MAIS UM COM PRISÃO DECRETADA
QUE SOFRA, ABATIDO, A EXISTÊNCIA AMARGA
DE ESTAR PRESO - QUE NÃO É TANTO,
DE ESTAR FRACO - QUE NÃO É MUITO,
MAS DE SER SÓ OU SÓ NÃO SER
O REFLEXO DE SI NUM ESPELHO D'ÁGUA
ALOCADA A UM CANTO DO PÁSSARO ESCONDIDO
PARA SACIAR UMA SEDE LATENTE
QUE AMEAÇA A TODO INSTANTE
EXPLODIR COMO UM JATO QUE VEM
COM FORÇA TOTAL DE UM LENÇOL CAMUFLADO,
PORÉM NADA DISSO QUE SENTE É SEDE,
É SÓ A VONTADE DE SEDE SENTIR
PARA TODA AQUELA ÁGUA BEBER
E ACABAR COM ESSE ESPELHO VAIDOSO
QUE LHE EXIBE UM ROSTO CORTADO
PELA PROJEÇÃO NA "PELE" TRANSLÚCIDA
DE VARAS QUE SERVEM NA VERTICAL
COMO LIMITE PARA ALGUMA CERTEZA...

E DEIXA-SE FICAR, FICAR ONDE ESTÁ,
DOBRADO EM TRÊS PARTES IGUAIS:
É CABEÇA, É TRONCO, SÃO SEUS MEMBROS
CONTORCIDOS NUMA EXPERIÊNCIA CIRCENSE;
E NUM RESSAIBO DE OLHO ANTEVÊ
OS ANIMAIS ADESTRADOS ESPERAREM
NUMA JANELA TÃO MAIOR QUE A SUA
QUE SEU TAMANHO A FAZ PARECER
UM MUNDO GRANDE DEMAIS PARA ABRIGAR
SERES CONTADOS EM NÚMERO PEQUENO,
QUANDO A SUA, QUE MUITOS PODEM QUERER
CONFUNDIR COM UM MUNDO A SEU DISPOR,
É MÍNIMA QUANDO SE TORCE PELA SEDE
QUE VENHA DEPRESSA ARREBENTAR
COM A INSISTÊNCIA A TODO MOMENTO
DE IMPETUOSA À SUPERFÍCIE BROTAR,
E TUDO O QUE CHEGA À BOCA BEM SECA
É SÓ A DESCONFIANÇA DE QUE A SEDE VIRÁ,
E ESPERA-SE...
ESPERA-SE...
O ESPETÁCULO COMEÇAR
SEM A FANFARRA - COMO É TRISTE!
SEM MULHERES - COMO É TRISTE!
SEM OS CAVALOS - COMO É TRISTE!


COMO SÃO TRISTES TODOS ELES!
COMO É TERRÍVEL A SENSAÇÃO
DE PÔR DECIDIDO A MÃO NUMA CARTOLA
E ENCONTRAR LOGO DE INÍCIO O SEU FUNDO
E PRESSENTIR NO OLHO DORMINHOCO
DE UM OU OUTRO NA PLATEIA
A CUMPLICIDADE COM O TRUQUE
E COM A DERROTA DE UMA VIDA!

E COMO É LARGA A PRANCHA ESTREITA
EM QUE CAMINHA, SIMULANDO DESEQUILÍBRIO,
UM CORPO AINDA ÁGIL SOB A MALHA
QUE REVELA UMA MAGREZA OCIOSA!

E COMO É PERCEPTÍVEL
A MANCHA ESCURA NO ROSTO PINTADO
DE UMA JOVEM QUE AS LÁGRIMAS FARÃO
UMA MÁSCARA DE SONHOS PERDIDOS!

TRAZEM-"ME", FINALMENTE, AOS BRADOS
E ANUNCIAM UM HOMEM SEM RIVAL:
SOU ESSA FERA - AVE! - PROPAGADA,
DOBRADA JÁ EM QUATRO PARTES IGUAIS.
E NINGUÉM ENTENDE, POIS NÃO VEEM
QUALQUER GRADE QUE ME GUARDE.

COMO FICO PRESO COM A GAIOLA ABERTA,
E COMO JAMAIS SINTO SEDE,
SÓ O PIPOQUEIRO PARECE ME ENTENDER
PORQUE SENTE NA PRÓPRIA MÃO AO PÔR O SAL
A VONTADE DE BEBER QUE SÓ ME VIRÁ
QUANDO NA TERRA A ÁGUA DESAPARECER.



CHICO VIVAS

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PARADOXOS




A pressa caminha a minha frente.

Se há vista, a pressa olha em volta
e, de relance, me vê.

Eu sou aquele Aquiles, aquele
em que há pernas, ligeiras há.

Mas por mais que me apresse,
não alcanço a tartaruga-pressa.

E se a alcançasse,
que seria de Zenão?
Se não, daria a Zenão razão.

Esse paradoxo apressa a palavra
e ela não é Aquiles não.
Ela não é a pressa, aquela.

Aquiles de pressa são palavras,
como (o) paradoxo que não se apressa
e divide, indefinidamente, o movimento, o espaço,
para, por mais lenta que caminhe a pressa,
a minha frente,
não a possa ultrapassar,
eu, esse-aquele,
aquele Aquiles que sou.

Mas não devo falar de mim,
nem como este nem como aquele,
embora eu seja aquele
que tem a pressa a sua frente
e não tem pressa de lhe passar a perna,
porque Zenão assim o quis,
porque se não, para que palavras:
esse paradoxo?

Como Aquiles? Como pressa?
Para que palavras?
E mais paradoxo, para quê?
E nem falei da flecha no ar
que em algum momento terá de parar,
e terá de cair;
se não, se não cair,
e no ar parada ficar,
a pressa, que anda devagar,
mas a minha frente sempre está,
mesmo que agora queira correr,
como ela, o que acontecerá?

Se sim, sim.
Se não, paradoxo.

Senão sim, um paradoxo,
mas um de Zenão.

CHICO VIVAS

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