quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

DADOS INCOMPLETOS PARA UM JOGO SEM FIM






Doei os dados que me machucavam os dedos
E fiquei com a mão livre para a lição de piano,
Já quase apagadas as marcas do azar,
Já tão cicatrizadas as feridas-consortes.

Da cauda do instrumento desconheço o corpo,
Mas toco-o,
E ele vibra.
Dou-lhe corda,
E meu pescoço aperta.
Toco-lhe no que é branco,
E pressiono seu negro profundo,
E o som me faz relembrar
As salas de jogos mergulhadas na penumbra,
O gosto forte de bebidas tomadas,
Tomadas a bocas alheias:
Porque não bebo.

E rolo, sem tê-lo à mão, os dados nos dedos,
Atiro-os à mesa do imaginário salão:
São de marfim esses dados que doo,
Com pontos marcados em marcado negror:
Se lhes toco o branco, é só um cubo dado;
Se lhes tocar no que lhes vai em preto,
É raso
E nem mesmo meu dedo mais curto
Afoga-se nessa lagoa sem monstro.

Mas, e se eu atirar os dados que tenho,
Ou que imagino ter entre os dedos,
Não sobre a mesa de jogo coberta
Com toalha verde marcada por mãos,
E sim direto no corpo despido
Que não revela as mãos que por ali passaram,
O branco será um som que arrancarei
Ou será um sonho cubista que pintarei?
E o preto,
Será dos dados os pontos
Ou serão alguns pontos marcados no corpo,
Sem que se saiba se por mãos,
E por quais,
Se por pianista de salão
Ou por um jogador contumaz
Que mesmo sem tê-los à mão,
Rola eternamente dados nos dedos?

Doeu deixar de jogar.
Já doía me atirar à mesa de jogo,
À cauda do instrumento de corda,
Ao corpo do piano-bar,
Ao que lhe vai em branco, lacuna
E no que lhe pinta de negro, profundo.

Dói ainda a lembrança nos dedos
Dos dados que deixei de jogar,
Talvez como doa a um pianista
Que tivesse doado seu piano de cauda
Para nunca mais tocar,
Mas que ainda hoje, contumaz,
Ao ver um corpo despido,
Toca.

Um corpo despido é um jogo
-Que sorte!-
De azar.



CHICO VIVAS



segunda-feira, 1 de abril de 2013

BAND-AID




Sonhei que uma nuvem se abria
E vertia sangue;
Mas não havia hemorragia.
Caia gota a gota,
Como se lágrimas fosse
De um Deus
Que verte sangue dos olhos
E tem lágrimas em Suas veias.

Continuei sonhando...
E nesse prosseguir
Fechei, da nuvem escancarada,
Essa sua abertura,
Usando um curativo alvo
Que vedava a gota.
Mas logo a seguir
O branco curativo
Manchou-se de sangue,
Levemente,
Avermelhando,
Evidentemente:
Eram como olhos que choram
E param de chorar,
Mantendo porém a cor da irritação,
Mesmo que não haja motivo.

Hoje, sei lá quanto tempo essa noite durou,
E na própria noite não tinha noção de tempo;
Não sei sequer se então dormia de dia.
O fato é que ainda sonhei
Que o tempo desfez a aderência
Do esparadrapo com a pele da nuvem,
Até se soltar de vez,
Como fruta madura a cair do pé,
Embora não o tenha machucado,
Deixando, porém, a nuvem marcada
Com a forma do retalho
Do curativo despregado,
Como uma dor que, enfim, passou,
Mas insiste em se fazer presente
Na cara limpa,
Em esgares sutis.

Agora, o que vem eu não sonhei
Porque foi insone que aprendi:
O sol queima a pele por igual
Sem distinguir o talho que há
De todo o resto são,
E até mesmo a nuvem,
Se um dia se tocar,
Talvez nem vá se recordar
Que uma fenda ali se abriu,
Fazendo gotejar,
De um Deus que tem sal nas veias,
As lágrimas tão iguais,
De um vermelho que resiste nos humanos olhos,
Depois de (...) tanto chorar.

CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de março de 2013

AGUACEIRO



Que chuva que cai!
E você no meu corpo sobe,
escala-o sem patamar
e isso me surpreende,
e isso me faz pensar,
embora não devesse ter cabeça
a não ser para a chuva que cai,
que você subindo em mim
e tão improvável quanto seria
uma chuva que não cai
e cujos pingos se elevam
como se da terra molhada
chovesse direto para o céu.


Mas a chuva cai
e alto você já vai,
tanto que já me perco
e não sei por onde mais
poderei voltar ao solo
depois desse muito ascender,
sem frio, que seu corpo não deixa,
com calor que me deixa seu corpo.


Pensando melhor, percebo;
percebo, mas não penso agora
que quando a chuva cai,
ela forma poças rasas
ou inunda as ruas demais,
então vem o sol,
porque ele vem uma hora ou outra,
e seca,
seco e objetivo,
e isso é como a chuva que não cai
e que sobe para os céus
em vapores condensados,
como é você me alteando,
alternando chuva e sol,
ora cansando, vapor,
ora vacilando, torpor.



E um fantasma começa a surgir.


E se a chuva que cai
e que depois há de subir
não passa do céu,
não sei onde você vai parar
com esses céus dentro de céus
e esse não mais acabar
de olhar alto cada vez mais
para ainda mais alto
querer alcançar,
levando-me junto.


E se a chuva cessar?
pensei isso agora:
será que você vai descer?
e as descidas são sempre mais rápidas:
isso há muito eu já sei,
porque se há chuvas que caem
e se apagam lentamente,
há outras chuvas que caem
e passam rapidamente.


Você: descerá bem veloz
ou me trará calmamente
ao chão do qual me levou
a alturas jamais exploradas?
Isso só hei de saber
quando de todo a chuva passar
ou quando você, displicente,
pegar o guarda-chuva que trouxe,
olhar para o céu a buscar
se resta sinal de chuva ali,
e ir-se, guarda-chuva fechado.


Se no meio do seu caminho
o tempo outra vez mudar
e de novo uma chuva cair,
será fácil para você:
basta abrir o guarda-chuva
para a chuva deixar de te molhar.
Mas, e eu?
Se a chuva voltar a cair,
sozinho, sem você,
como farei para subir?
Sozinho, sem você,
só me restará torcer
para a chuva cessar,
e não para que não alague as ruas
e esses rios o traguem de vez,
mas só para aplacar meu desejo
de continuar subindo, subindo...
como uma chuva que não cai,
e só sobe como se
do chão chovesse para o alto.


Em último caso,
se não voltar a chover,
tomo na mão o regador
e vou as flores regar,
deixá-las belas, viçosas,
embora não as queira colher.




CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

VALE


De nada me vale um valha-me Deus.
Um Valhala de nada me vale.
De nada me vale um verdejante vale.
Um vale-esperança de nada me vale.
De nada me vale um vá ali:
Eu não vou, e isso de nada me vale.
De nada me vale a mais-valia.
(Já não valia no tempo em que valia alguma coisa)
E saber que eu valia mais de nada me vale.
Na hora do aperto de nada me vale
Conjugar com correção o verbo valer,
Sem todas as suas pessoas,
Por mais heterônimos que tenha.
De que me vale o mais doce dos rios?
Um vale de lágrimas de nada me vale.
De nada me vale ser um ás ou qualquer coringa.
E todas as Rainhas (salve!) de nada me vale(m).
De nada me vale ver passarinho verde.
E versos passarinho-passarão de que me valem?

CHICO VIVAS

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

TRÁFEGO AÉREO




À noite,
Cego como me faço,
Bato-me contra um pássaro
Estrábico
Que estilhaça meus olhos
Baços,
Opacos,
Como se fossem
O para-brisa de um carro,
Molhado,
Encharcado
De recente névoa

O tal pássaro
Não tem penas,
Mas também não é calva ave.
Ele não tem
Pena de mim também.
Ele é de aço.
Já meus olhos truncados,
Abertos,
Quebrados em mil pedaços,
Ainda todos juntos,
Vêem agora o mundo em volta
Como círculo empenado,
Quase quebrado.
E quando olho o vazio,
O vazio partido,
E se tomo meu próprio partido
E reclamo do pássaro,
Meu outdoor alaranjado,
Voo vadio,
E minha voz se esvai
No vácuo macio
E não se propaga,
Resta-me então
Vagar pelo cheio desta vida,
À noite,
Ou mesmo de dia,
Cobrindo os olhos
Com as mãos inteiras,
Cheia de dedos,
Com medo de que um avião,
Emplumado,
Aprumado,
No auge do seu cansaço,
Choque-se sem baque
Contra mim
E eu lhe quebre o pára-brisas
E não tenha como pagar,
A menos que arranque meus próprios olhos:
Mas o que ele haveria de fazer
Com esses meus olhos fendidos?
Ao voar alto veria
O mundo todo de cima
Como um mosaico,
Um quebra-cabeça maluco.
E eu,
À noite,
Meio tonto,
Perdida a cabeça:
Como ele me veria?
E eu,
De dia,
Ainda meio tonto,
Cabeça vazia:
O que seria?
E se eu,
Enfim, acordasse,
Sensato e com razão,
Com a cabeça no seu devido lugar:
De que me adiantaria?...
Se nem relógio eu uso,
Se não posso (me) atrasar:
De que adiantaria?...
Se não posso ver
Um pássaro à minha frente,
Assim,
Se olhos quebrados,
Num acidente noturno,
Quando um choque
Entre mim e o pássaro
Fez-me cair na armadilha,
Como ele cai no laço,
De confundir o sonho
Com a devida realidade,
Nessa idade em que
Só sonho
À noite
Porque de dia,
Viajo
Nas penas de um avião
Que voa em busca
De ares mais quentes,
Fugindo dos invernos:
Se se desviar de sua rota,
Chegará aos infernos...

E onde terras mais “ardentes”?


CHICO VIVAS

sábado, 1 de dezembro de 2012

VERSOS SEM PÉ NEM(NEM)-CABEÇA



FALTOU UMA PERNA A RIMBAUD.
E UMA PERNA A OUTRO POETA FALTOU:
E DAÍ?

SÓ PORQUE OS DOIS FAZEM VERSOS?
(SIM, FAZEM, NO PRESENTE,
POIS SER POETA É AÇÃO
DO INDICATIVO DE AGORA,
SEM TEMPO ATRÁS,
EMBORA LÁ POSSA ESTAR A RIMA
E MESMO A RIMA QUE NÃO HÁ,
SEM TEMPO ADIANTE,
MESMO QUE SE PENSE EM VERSOS INFINITOS
E SE PENSE SEMPRE NO INFINITIVO DOS VERBOS,
PARA FRENTE, JAMAIS PARA TRÁS):
E DAÍ?

A QUANTOS (OUTROS) FALTA UMA PERNA
E JAMAIS POEMA FIZERAM?!
LOGO,
INTROMETENDO A RAZÃO AQUI,
NÃO DEVE SER UMA PERNA A MENOS
A CAUSA DO VERSEJAR:
MAS QUE FAZ ESSE LOGO LOGO AQUI,
TÃO CONCLUSIVO, RACIONAL?
PORQUE se PODE DIZER,
SIM, PODE-SE DIZER,
QUE A PERNA QUE A UM FALTOU
E QUE FALTOU A OUTRO TAMBÉM
FORAM A CAUSA DOS SEUS VERSOS:
MESMO QUE ISSO SEJA MENTIRA.

QUAL, AFINAL, LOGO AQUI,
A IMPORTÂNCIA DE UMA VERDADE,
TÃO FINAL?

E SE SÓ UM A PERNA PERDESSE
E MAIS A NENHUM POETA ELA FALTASSE,
COMO OS DOIS SE COMPARARIA(M)?
ORA, ARRANCANDO AO OUTRO A PERNA
OU COLANDO-A AO QUE A PERDERA.
CORTARÍAMOS DE UM UM DEDO DA MÃO
E NA DO OUTRO OUTRO DEDO TAMBÉM
E ASSIM PODERÍAMOS DIZER
QUE A ESTE FALTOU UM DEDO DA MÃO
E ÀQUELE DA MÃO UM DEDO FALTOU.
E DIRÍAMOS:
E DAÍ?
E PODERÍAMOS DIZER:
TANTO FAZ!
E CHEGARÍAMOS ENTÃO A DIZER:
SÃO OS DEDOS QUE FALTAM NAS MÃOS
QUE OS FAZEM OS POETAS QUE SÃO.

E SE AO INVÉS DO DEDO DA MÃO,
A UM A MÃO INTEIRA CORTÁSSEMOS
E DO OUTRO MAIS DO QUE UM DEDO,
CORTÁSSEMOS-LHE TODA A MÃO?
E SE DE UM TIVÉSSEMOS CORTADO
DO SEU BRAÇO DIREITO TODA A MÃO
E PARA SER PERFEITA A COMPARAÇÃO,
AMPUTÁSSEMOS DO OUTRO SUA MÃO,
COMO ESSES DOIS POETAS
ESCREVERIAM SEUS VERSOS?

TALVEZ SÓ OS PENSASSEM.

QUEM SABE DISTASSEM-NOS.

PODE SER QUE SÓ OS "CONTASSEM"
(ONDE: NOS DEDOS DA MÃO?),
FAZENDO DA BOCA AS MÃOS ARRANCADAS.

E SE SÓ MENDIGASSEM,
EXIBINDO EM PÚBLICO SUAS MANETAS,
CONDOENDO OS PASSANTES COM SUAS DESDITAS,
ASSUSTANDO OS PEQUENOS COM SEUS HORRORES?!

E SE JAMAIS UM VERSO TECESSEM,
E UMA RIMA JAMAIS ENCONTRASSEM,
E EM BRANCO FICASSEM SEUS VERSOS,
E DA MEMÓRIA SE LHES APAGASSEM,
MESMO O SENTIDO DA POESIA?

E SE,
E SE,
E SE?

COM ISSO NÃO SE FAZ UMA ANTOLOGIA
("E SE" FIZESSE?)

"E SE" SÓ FAZ AQUI
CONDICIONAR O TEMPO DE AGORA
AOS DADOS QUE SÓ AMANHÃ SERÃO JOGADOS:
E ISSO É LONGE DEMAIS PARA OS VERSOS DE HOJE
QUE FALAM ("E SE" NÃO FALAM?)
DAS PERNAS QUE ONTEM FALTARAM
(A RIMBAUD, A PAES)
OU DAS MÃOS QUE ME FALTAM.

E SE?

CHICO VIVAS

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O PREGO QUE FALTAVA



Um velho cândido de cabelos brancos
martela um prego de cabeça dura.
Bate o velho com o martelo.
Bate o martelo no prego duro.

Por mais que bate o velho,
seu rosto é sempre cândido
e seu cabeço é sempre branco.

Por mais que bata o martelo,
pouco se sabe de sua vida-velha.
Do prego, sabe-se que entra,
perfurando a madeira dura,
a parede dura,
e quantas mais superfícies
se apresentem a sua ponta fina,
levando golpes certeiros
de um martelo às vezes incerto,
dadas as mãos do velho,
com a força de um velho cândido,
uma força que, nada bíblica,
não está nos cabelos brancos.

O que faz o velho com esse prego?
Nada.

A cada dia que passa,
como um calendário rudimentar,
como uma ampulheta que lhe martela
a cabeça o tempo todo,
vai pregando:
na parede,
na madeira,
cada dia com um prego.

Prefere assim o cândido homem,
o homem que preferia não ter
esses seus cabelos brancos.
É que os tantos dias ele viveu
com cabeça negra e rosto cândido
já se lhe despregaram da memória,
e quando, agora,
se olho no espelho,
nem a fantasia lhe pinta o rosto,
um rosto cândido, cabelos brancos.

A cada dia, um prego.

Prega cada dia com um.

Cada prego é um dia.

Conta cada prego como um.

Mas seus golpes de martelo
nunca vão até o fim,
não enterram todo o dia,
deixa do prego a cabeça de fora,
deixa que do dia
uma lembrança aflore.

Com todos esses pregos salientes,
como ganchos sem nada sustentarem,
a não ser a saudade de um dia,
a certeza de um prego como guia
da memória em que não mais se fia.

Usa-os para pendurar
os retratos de uma vida.

Em algum lugar o rosto cândido
é cingido por moldura negra.
Cabelos alinhados que se foram,
dias ordenados que se foram,
pregos esgotados que se vão.

Força no martelo que se vai.

O rosto ainda é cândido,
quando lhe pregam o caixão.



CHICO VIVAS

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

QUE SACO ESSE VAZIO!


Afundei a mão num saco
E encontrei o saco vazio.

Todo vazio é como um saco
Que mão alguma alcança.

Fiz desse vazio um saco
E nele me afundei.

Lá não havia um saco,
Mas uma mão vazia
Que procurava por um saco,
E que achou-o nesse vazio,
E que fechou-o.

Eu, lá dentro, naquele vazio,
Onde quer que pusesse a mão,
Nenhuma outra encontrava.

Acomodei-me ao saco,
E tanto que já agora
Sinto-me de sua matéria um igual,
Podendo ser um saco em que
Se uma mão afundar,
Só irá encontrar um vazio,
Podendo ainda ser o próprio vazio
Em que se uma mão se aventurar,
Não encontrará nem um saco.

Saco e vazio:
Por que, me pergunto,
Uma mão vazia não me leva,
Tomando-me por um saco vazio?

Acomodei-me à espera,
E o que alcancei foi só
Desesperanças a mancheias.
Sorte delas estarem assim!

Porque esperança é como meter a mão
Num grande saco vazio
E esperar por outra mão,
Uma dessas que cheias estão.

Temo apenas que querendo depor
Por um instante o desespero da mão,
Elas tomem o primeiro saco
E o encha com aquilo
Que agora faz a mão vazia.

Eu, portanto,
Tão vazio até então,
Ficarei cheio até a boca
Com a desesperança daquelas mãos,
E assim serei maior como saco
E infinito como vazio.

CHICO VIVAS

sábado, 1 de setembro de 2012

LEI DO SILÊNCIO



Os risos da madrugada,
As buzinas escancaradas,
Na face do meu verso insone
Concertam-se em desarmonia
Para me manter acordado,
Olhos atentos a todos os ruídos,
Procurando-os em meio à noite
Que muito já vai além da meia,
Cravando-os na escuridão
Como se acertasse direto no alvo,
Sem calcular da aurora seu preciso lugar.

A esmo, eu mesmo, sem rumo,
De ouvidos aguçados para sombras reais
Que passam, passeiam e voltam
Sem trazerem junto um corpo,
Como um corpo que passa,
Como um corpo que passeia,
Como um corpo que dá voltas
Sem uma sombra a seu lado
Ou lhe adiantando os passos,
Ou mesmo atrasada,
Atada a seus pés.

É só mais um dia à noite!
É só mais uma noite tardia!
É só mais um felino esgueirando-se
Rente aos muros, olhando-o
Bem alto,
Experimentando com os olhos
O pulo que o elevará,
Mas, covarde, não sai do lugar,
E ainda caminha,
Estreitando-se à parede,
E só quando dá de cara
Com um buraco naquele muro,
Arrisca-se a atravessar,
Encolhendo-te aqui,
Para alongar-se acolá.

Porém, do outro lado
É igual ao lado de cá,
Com muros altos que ele olhará,
Com pernas curtas que arranjará
No ponto certo para o pulo enfim dar,
E termina ficando onde está,
Insinuando-se, colado à cerca,
Até novo buraco encontrar,
Passando assim para o lado de lá
Que é semelhante a este lado de cá.

Nisso, o sol se achega
Como se atravessasse um buraco,
Saindo do escuro de algum lugar
Para o claro do lado de cá,
Revelando, assim, com clareza,
Que o gato medroso a passear,
Ameaçando o muro subir sem nunca pular,
É um homem, só isso, querendo saltar,
Olhando os riscos que há
Nos risos da madrugada,
Com buzinas explodindo em sua face,
Escancarando o verso que é
Disto aqui um outro lugar,
Deste cá o lado de lá,
Como uma moeda de única face,
Com cara, mesmo se rei, sem coroa, mesmo se rainha,
Com verso sem rima,
Como de uma noite não dormida
Da qual há-de despertar,
Espreguiçando-se,
Sorrindo ao sol,
Olhos ainda noturnos,
Fingindo que tudo está no lugar,
Enganando-se de que está aqui,
Quando ainda está do lado de lá,
Ou crendo-se ainda por lá,
Quando sequer saiu do próprio lugar.

À janela, aos risos.
À madrugada, aos olhos.
À janela, ao verso.
À buzina, ao silêncio.
À face...insone.

CHICO VIVAS

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

RECEITA CASEIRA COM CLARA DE OVOS



Teu corpo, almofadas confusas

Para minha cabeça negra, olhos antigos,

Afunda sob o peso da carne nova

E sobe...como maré que avança.

À sua iminente quebra, nas pedras,

Faço-me rocha, duro na queda,

Mantenho-me firme, confiante em mim,

Mas não descruzo os dedos.

Deixo-me, pedra, coração mole, lavar,

Só não me deixo, água, levar.

Fico encharcado,

E desejo um charco.

Porém, só me ofereces,

Em lugar da lama desejada,

Água benta

Já suja dos teus améns...

É isso! Que assim seja!

Um dia, farás, confuso,

Dessas tuas almofadas corpos tecidos

Com fantasia quadrada,

E nelas,

Ao custo de um recheio sem doce,

Deitarás como minha tua própria cabeça,

Num contorcionismo sem graça,

Porque se dobra sobre si mesmo

E não se desdobra sobre um outro:

Corpo.

Porque, em vez de mostrares

Teu corpo entrando em outra fantasia,

Só exibirás almofadas afundadas,

Como um baixo-relevo de cabeças

Que, um dia, em teu corpo “pensaram”,

Pensando que assim o curvavas,

Pensando que assim o curtias

Como couro bem trabalhado

Com o qual, se não se fazem almofadas

(ainda que isso seja possível),

Se constroem belas fantasias,

Mesmo que em contorções costumadas.

Isso tudo sem pesar os prós,

Contra todos os contrários

E a favor, tão-só, do vento leste

Que sai da tua boca em suspiros,

Desejando

(que água na boca, meu Deus!)

Que suspiros não saiam:

Entrem-te goela adentro,

Entretendo tua língua

Que ora vai ao céu

Arrancar fragmentos de suspiros,

E ora

(que diabos!)

Acabou-se o que era doce.

E tais suspiros mordidos

Revelam que não têm nada por dentro,

Nada a dizer, todos bem aerados

Como se fossem uns cabeças-de-vento.

Tão nada que, se se os morder,

Morde-se neve não gelada,

Gélidas claras batidas com a mão,

Porque eletrodomésticos

Até podem ser boas batedeiras,

Mas fazem tudo muito rapidinho,

Enquanto que com a mão: não!

Mesmo que disso tudo ela saia

Como se se despedisse de um trabalho sujo,

Embora sem marcas indeléveis,

Até mesmo fugazes essas marcas

Na lembrança das fantasias.

Então, que se batam as claras,

Às claras ou num agradável escuro,

Sem toque-toque na porta,

Com suave gostinho de limão,

Em raspas,

Aroma verde de cascas rapadas,

Como almofadas sem pelos,

Como peitos bem recheados,

Tanto de doces suspiros

Quanto de salgadas águas

Que dos olhos se ejetaram

E vieram se intrometer no meio

Destes versos sem nenhum sabor,

Insípidos,

Insistentemente cúpidos nas entrelinhas,

Ainda que andem tão na linha

Que parecem um trem danado de bom

Essas almofadas vagas,

Esses vagões acolchoados

De um trem-bala

Em que não se encontram suspiros

E nem mesmo

(que trem é esse?!)

Uma balinha que rola na boca.

E como nas longas viagens,

Mesmo nas que, de relógio, durem tão pouco,

Ainda que, na memória, infinitas jornadas,

Precisa-se em alguma hora

Se apoiar a cabeça num lugar macio.

Tendo almofada à mão,

Hei de preferir teu corpo a meus pés.

E piso.

E teto.

E entre o mais baixo de nós,

Que nem precisa ser eu,

E o mais alto de todos,

Há um recheio de desejos.

Se te piso, sou ex-mago,

Já sem poderes de varão,

Com varinha alquebrada.

Se te teto, vou às alturas,

Desequilibrado como eu só,

Como criança que se ocupa

Em apoiar uma cadeira sobre a outra,

E são muitos os assentos,

Como é única a almofada,

Só para alcançar, no alto,

Ainda bem abaixo do teto,

Um pode de suspiros:

Que não alcançará

Porque as cadeiras caem em cadeia,

Deixando(-me?) com um pote de mágoas nas mãos.

E, então, no chão já,

Lavo as mãos

Para sujá-las outra vez

Batendo claras calmamente,

Sem pressa para fazer neve,

Vendo aumentar o calor,

Ansioso pela primavera.

Verão!

Só não veem porque não mostro,

Para fingir que ainda babo por almofadas.

E eu só suspiro!...

CHICO VIVAS

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