segunda-feira, 1 de março de 2010

UNIDADE DE QUEIMADOS


MINHA CASA ARDE,
MINHA BOCA ARDE,
MINHA PELE ARDE,
MEUS OLHOS ARDEM
POR CAUSA DAS CHAMAS ALTAS
DA MINHA CAMA A ARDER.

AS JANELAS DA MINHA CASA
SÃO COMO BOCAS ARDIDAS
CHAMANDO POR SOCORRO
QUE LHE VENHA NÃO EM JATOS D'ÁGUA,
MAS SÓ POR MAIS FOGO
QUE LHES FAÇA ARDEREM.

ESSES MEUS OLHOS VERMELHOS
QUE BEM PODERIAM SER
DE MIM AS JANELAS ABERTAS,
SÃO TODA A CASA A ARDER.

ARDE-ME TODA A PELE
(E QUE NÃO SE PONHA POMADA NELA,
NEM QUALQUER OUTRO ALÍVIO SE LHE DÊ):
O QUE QUER A MINHA BOCA
É EM ÁGUA SE ENVOLVER,
NÃO A DO DEGELO DA NEVE,
MAS A DO BEIJO A FERVER,
EM BRANCO, EM PRETO,
COMO NUM FILME PASSADO,
EM AMARELO, EM AZUL,
EM CORES TODAS BEM FORTES,
COMO NUMA
ESTÓRIA A PASSAR.

MAS QUE NÃO SEJA APENAS VERMELHO,
PORQUE JÁ BASTAM OS MEUS OLHOS A ARDER,
E MINHA CASA A QUEIMAR,
SOLTANDO LABAREDAS
QUE COM LÍNGUA SE PODEM COMPARAR,
E ME FAZEM INTROMETER,
NESSA ARDÊNCIA DE PALAVRAS,
ESSA MINHA LÍNGUA TÃO FRIA,
COMO BLOCOS DE GELO.

ARDEM-ME AINDA OS DEDOS.
E SE ESFREGO OS OLHOS VERMELHOS
COM OS DEDOS A ARDER,
SOLTA FAÍSCA MINHA PELE
E FAZ MINHA BOCA QUERER
QUE VENHA LOGO O AUXÍLIO.

ESCADA MAGIRUS E BRAVURA!
QUE SE LANCEM DE MANGUEIRAS ENROLADAS
OS DISTINTOS JATOS DE FOGO
QUE, AO CAÍREM SOBRE MEUS OLHOS,
AVERMELHAM MINHA BOCA;
E SE FOR A BOCA A ELES RECORRER,
DESCANSAM ESSES OLHOS BRANCOS
QUE MIRAM A PELE A ARDER.

E, FEBRIL, DE LÁBIOS RACHADOS,
PASSO A LÍNGUA SOBRE AS FERIDAS
E NADA SINTO!

E SE FRIO COMO GELO,
OLHO PARA TAIS LABAREDAS
E NÃO FICO MAIS VERMELHO.

PARA QUE PELE?
PARA QUE LÍNGUA?
PARA QUE (ME) SERVEM PALAVRAS ARDENTES?

DE TANTO JÁ QUEIMAR A CASA ARDE
E UMA HORA HÁ DE CAIR.

CAIRÃO NESSA HORA OS MEUS OLHOS?
E A MINHA BOCA CAIRÁ?

DE TANTO ARDEREM, MEUS OLHOS (ME) QUEIMAM,
E UMA HORA HÃO DE SE FECHAR:
SAIRÁ MINHA PELE DO CORPO?
E MINHA BOCA SABERÁ?

DE TANTO GELAR, MINHA LÍNGUA ARDE
E FAZ A BOCA, A MINHA, QUEIMAR,
E UMA HORA HÁ DE FALAR
TODAS AS PALAVRAS VERMELHAS:
SABERÁ MINHA BOCA CATÁ-LAS
OU DE NADA SABERÁ?

SE ARDO,
SE QUEIMO,
SE (ME) AVERMELHO,
SÃO SÓ PALAVRAS(-)SABIDAS

SE CHAMO,
SE CHAMA,
SE CHAFARIZ,
SÃO SÓ ARDORES
DE UMA NOITE FRIA QUE DIZ
QUE O SOL LOGO IRÁ DEGELAR
E O RIO QUE ASSIM SE FORMARÁ,
CAUDALOSO, AVERMELHADO,
CORRERÁ SOB MEUS OLHOS CANSADOS
DE PROCURAREM NUM INCÊNDIO
UM MOTIVO PARA FALAR
DE UMA CHAMA QUE PELO NOME NÃO CHAMO
PELO TEMOR DE ARDER...
DE QUEIMAR
.

CHICO VIVAS

domingo, 7 de fevereiro de 2010

hINOMINÁVEL



Dize-me, ó mar!...
E quantos outros antes,
neste mundo, num canto,
já não estiveram a te perguntar,
ó mar!
Dize-me, então,
no canto que me põe entre tantos,
quantos não sei contar,
dize-me, ó mar,
por que hesito em perguntar,
e faço voltas, indo,
e volto para cá?
É de revoltar, ó mar!
Em vez de, dize-me logo,
do canto onde de encontro,
dúvidas te atirar, ó mar?


Garrafas não tenho à mão,
bebidas amargam-me a boca,
ó mar!
Escritos, todos os amargos doces (me) parecem
como o amar um dia doce,
amarga ter de cair no mar,
nesse pranto em ondas,
nesse prato (cheio) salgado
em que o nosso mar em gotas,
lágrimas hoje de um recuado amar,
caem e, dize-me como, ó mar,
desaparecem entre outras,
sendo tu o mesmo mar
(pelo menos aos nossos olhos).
Como pode sumir assim
o que ao olhar era sem fim
como agora, ó mar, é mar
aquele amar que era sólido,
hoje liquefeito no ar?


Dize-me, ó mar:
até quando poderás suportar
que te lancem garrafas plásticas,
como um fixo olhar
sobre ti a se deitar,
deixando-se ir, fazendo-se levar,
tal qual, esses olhos que boiam,
envelopes abertos a comunicar
a dúvida desse dizimar?


Porque não se devasta mar.
Pode-se talvez dizimar,
e se isso acontece,
por mais que eu pergunte,
o que mais dizes, ó mar?
E amar, dize-me, ó mar,
que ainda dizimando-não,
amar pode ser devastado-sim
como mata fechada em que
todo caminho se crê conhecer
e um dia, picada e picada,
a mata, aberta a tantos caminhos,
é só um caminho aberto,
mas fechado ao mar
e amar, ó mar, dize-me,
é possível "ele" dizimar,
como se, palavra a palavra,
todas feitas de papel,
enxugassem, sílaba a sílaba,
esse monossilábico mar?


Tão ele uma sílaba só,
esse mar monossilábico
que, salvo ondas de cochicho,
esse vaivém a murmurar,
silencia,
silencias, ó mar.
Quando, dize-me ó mar,
pergunto-te,
por que só respostas no ar?
Será, ó mar, que baixei os olhos,
e deveria esses olhos elevar,
porque eleva-dor
e subir no conceito do céu,
pois se existe - existe céu, ó mar?-
deve ser para nos ouvir,
embora, como tu, ó mar,
por mais que lhe pergunte, ó céus,
só me dizes: mar!


Deste ao céu.
Deste ao mar.
E eu sempre no meio.
E quem resolve, revoltado,
a questão do amar que um dia água,
dia seguinte, vinho,
terceira noite, céu,
e quarto - de dia ou de noite - mar
e ainda no outro - noite ou dia -,
dizimar:
dize-me, ó mar!


Sei que tropeço na língua,
e grande até que ela não é.
Será que te calas, ó mar,
porque tantos, entre tantos como eu,
vêm te perguntar,
e dar respostas a todos
poderia te valer - de que isso te valerá? -
ser conhecido, ó mar,
como um língua-comprida?
Mas, ó mar, dize-me
(antes dizimar),
se o que pergunto não é
o que, entre tantos, outros
vêm sempre te perguntar.
Assim, dize-me,
se me respondes, ó mar,
não respondes a todos
que um dia, amar,
outro, dizimar,
outro ainda, céu calado,
e mais um, silencioso mar.
Assim, dize-me
se não sou o primeiro a te perguntar
e se respostas aceitaste dar
para pergunta, ó mar,
que te faço, dize-me,
a resposta já não está no ar?


Mas onde, ó mar?
no ar que é o ceu,
nesse seu ar de mar,
ou entre ti, ó mar e,
dize-me, ó céu,
nesse espaço de ar
em que se garrafas são jogadas,
no chão vão-se espatifar;
se perguntas recebem,
respostas ficam no ar;
se mensagens são enviadas,
é um disse-me-disse.
Preciso saber, ó mar.
Portanto, dize-me,
antes dizimar um amor
quando o amor ainda está no ar
para que, um dia, dize-me,
este mesmo amor não vá
parar nas móveis ondas no mar,
ó mar,
em ti,
esse amar?


Ou será melhor um amor,
por mais que haja cacos no ar,
porque no (nosso) céu
esses cacos, garrafas partidas,
quando pisadas, não doem
(mas quando caímos do céu...
mas quando perdemos o ar...
mas quando temos de, ó mar
mergulhar
para nunca mais...),
do que correr o risco
de dizimar antes da hora,
saindo antes da última palavra,
chegando cedo demais ao mar,
para aí as lágrimas lançar,
pergunto-te, entre soluços, ó mar,
por quê?
por quê?
por quê?
sem perceber que, lágrimas em ti,
agora elas são o próprio mar,
ao querer, eu, que digas, ó mar,
quando a elas agora
é que deveria perguntar.


Porém, se em ti, fora de mim,
tão vasto mar,
essa resposta não há,
dize-me, ó mar,
será mesmo em mim
que hei de a encontrar?!
Não - se a mata devo devastar,
não - se o mar posso dizimar,
não - se o céu é-me permitido importunar,
até chorar, até calar,
até beber,
até ferir os pés nos cacos,
até à vista, ó mar
ou há outra solução para viver,
dize-me, ó mar?


Ah! mar, dize-me,
por que o amor,
esse deus com cara de anjo,
está sempre a cobrar
seu dízimo, dize-me, ó mar,
a intervalo regular.
E cobra!
E quer, em troca, esse amor,
que nele se acredite,
mesmo que só dê as caras
com sua diáfana face de ar,
com sua inapreensibilidade de mar,
com foro privilegiado, no céu,
difícil de se alcançar;
talvez, dize-me, ó mar,
tão alto assim para que
não possamos mesmo reclamar,
restantdo somente ao ar lançar
nossas dúvidas, ó mar,
que se perdem em meio a outras histórias...


E há, vê isso, ó mar,
que o amar é capaz de deixar
qualquer um em estado de graça,
com olhos que veem anjos
onde só aves há,
que veem certezas
onde, não restam dúvidas,
só dúvidas...é que há;
com olhos que veem beleza
onde já se é belo
e enxergam ainda belo
onde beleza não há;
com olhos que veem eternidade
onde tudo é com data marcada;
que veem mar
onde só olhos há;
com olhos que chegam a ver
olhos...
e chama a isso que vê de mar
e quer aí entrar,
nesses olhos mergulharem,
quase a morrerem,
Depois voltar à tona sem fôlego
para a boca beijar
e ter certeza de que
tudo o que esses olhos viram,
por mais que outros digam
que não é bem assim,
que é ilusão do amar,
é, digo-te, ó mar,
a mais pura verdade.
E, mar, dize-me,
tu que recolhes tanto olhar,
se há verdade que seja pura.
Dize-me, ó mar,
se só há um de ti
ou se há outro possível a...mar.
Se só este em mim
ou se há outro de mim
ou se devo tudo isso deixar para lá.
Se há outro, se este outro
é igual, como sou "eu" e "mim",
ou se havendo outro,
haverá de mim outro eu
ou se somos todos iguais,
variando apenas a posição
frente ao mar, dize-me:
um que ali lança perguntas,
outro que, perfumado, com "esse ar",
lança um olhar
para a superfície, dize-me, do mar.
em busca do quem ora boia,
sem saber que este é náufrago
que acaba de se salvar,
que foi ao mar para morrer
e, no fundo das águas, sem querer,
suas próprias lágrimas foi encontrar,
e nelas achou a resposta,
e voltou, quase sem ar, à vida,
desejando senão, dize-me, mar,
dizer ao amar, ó mar, preciso de tempo,
mas, fisgado por aquele olhar na praia,
pescador de profissão,
que não sabe fazer outra coisa se não olhar,
esqueceu do que dizem do mar
e antes mesmo de sair das águas,
voltou, te digo, ó mar,
a amar.


O que será dele agora, ó mar?
Dize-me, se esse novo amar
é um velho hábito humano
para fazer rir o deus
ou se é a novidade que existe
em viver a perguntar,
a encontrar respostas em si,
a beber e a atirar as garrafas no mar,
esquecendo-se de nelas encerrar
uma mensagem que poderá
conter a resposta achada
e por tantos outros desejada,
ou a "própria" pergunta,
mais uma a encher o mar de dúvidas,
de garrafas,
de amar(es),
de hojes eternos
que ficam ontem antes da hora,
do sonho de um amanhã encontrar,
mesmo que se diga, ó mar,
que ainda é muito cedo
para insistir no erro de viver,
para descobrir o acerto de amar,
para perceber que a solução
para todas as perguntas
estão, antes de no mar,
em como se as perguntar.
Não é: ainda amar?
Pode ser: já?!
Mesmo que isso não queira dizer
amar já,
para não amargar o doce
quando a língua ainda não se lambuzou
de todo o fel,
que como todo mel,
é para ser bebido,
mas não direto na garrafa,
e sim a colheradas.
Quantas, aliás, dize-me, ó mar,
são necessárias para ti,
não para ti, que não precisas nada beber,
mas para te conter?


Sei só que a mesma quantidade
de mel que faz um amor encantado
é igual, sem tirar nem pôr,
à de fel para o mesmo amor,
quando se lança, junto com o olhar,
o encanto todo no mar.


Dize-me, ó mar: amar?
Se sim, quando mel,
doce água do mar,
te deixas encantar, levado por sereias
se não, quando fel,
sal de amargar,
onde lanças com teus olhos, ó mar,
o desencanto do teu amar?


Ah! e eu aqui
(junto comigo, outros tantos
que, diferentes de mim,
não fazem perguntas ao mar)
a invocar-te, ó mar,
a repetir esse "dize-me",
a querer respostas: quem as tem?
Respostas que não preciso para mim,
e não pela falta de fel,
mas pelo pouco desejo de mel.


Talvez, ó mar, eu só esteja
insistentemente a te perguntar
para a outros resposta dar.
Mas, dize-me, ó mar,
a resposta é a mesma?
A pergunta é sempre igual?
Os anjos têm cara de deus?
E, meu Deus!, que cara tens, ó mar?
Será cara de poucos amigos já,
por eu estar aqui só a falar,
sem ao menos dar-te tempo
de, tendo a resposta, me a dar,
já que não podes,
pela natureza que tens, ó mar,
dar de costas,
fazer de conta
tudo o que nós, digo-te, mar,
sabemos tão bem fazer?
Damos de costas, fazendo de conta
que olhamos na cara, com cara de anjo.
Talvez o segredo seja não "te olhar",
ó mar!
Mas, dize-me se for assim,
em nós nenhuma certeza encontrar.


E nada dizes-me, mar!...


E assim continuarei,
vida afora,
a te perguntar.


Dize-me, ó mar!



CHICO VIVAS

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

HAMLET DE OUTLET



O que soo

Se C ou não ser

Não é,

Seja isso o que for?

Se ser não E

E ser ou não ser

Soa assim

Como se não fosse,

Apesar de ser o que é?

Se sou,

E se isso soa a ser

Ou não C é

Ou, então, não, sô?

Sim, senhor, eu sou

O que suo,

Embora isso não seja C.

Se não suar,

Serei

Ou dirão que não,

Porque assim não soo

Ao que pretendo ser?

E se soar,

Num assesoir

Que não é sentar,

Que também não é C, tá!,

Um acetato que não se toca,

Ser rei

Ou errei ao C,

Isso ao cubo?

Dados postos,

Jogador de lado,

De qualquer dos seis,

Isto soa a jogo

De palavras suadas,

De palavras sem C,

De um C que não é,

De um E que só é

Se, acentuado,

For ser.

Forcei a mão

Como um Deus que joga dados.

Deus, sei que não sou.

Deus não sua,

Embora tudo soe a Ele

Como soi acontecer.

Se soo perdeu o acento,

Num jogo-de-cadeiras,

Perdendo o rebolado,

Com É não.

É ainda tem seu lugar,

Mesmo que,

E devemos lhe tirar o chapéu,

Quando circunflexo,

Circunspecto,

Fechado e conspícuo,

Ê ê ê ê!...

Sou, vá lá!

E isso é o quê?

O quê, sabe-se,

Não E,

Não C,

Não é o que parece ser,

Sendo o quê que é.

Se ser ou não ser é,

Tanto faz ser, que E,

Quanto não,

Que isso ainda é.

Se não for, vá lá!

Se for, é só ser.

Suado já,

Meu C (apenas um C)

Não é mais aquilo que foi,

Anda pondo manguinhas de fora,

Sem manter, entre as pernas,

Seu rabinho preso,

Soltando-o mesmo,

Como um S,

Como se,

Se sentindo como se fosse,

Não fosse o que é.

Cada qual seja o que for.

Cada um na sua.

Cada um sabe o que E.

Cada qual no seu ser.

Todos em si.

E só eu mesmo no ar


CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

PEDRA DE ESCREVER




Palavras de pedra,
Sílabas rochosas,
Letras em pó
Como uma enorme frase que,
Com o vento,
Que com o mar,
(e sem falar: e com o tempo)
Em areia se tornou.
Mas há o caminho inverso
Que faz do pó da pedra,
Da areia da praia,
De novo concreto castelo,
Mesmo que venha uma onda
e...ah!...
Se ele, contudo, dura, tão mole,
O exato tempo de um sonho:
Dura, então, uma eternidade.
Se um papel, tão mole, dura,
A ponto de se deixar romper
Por uma palavra mais funda,
E se uma pedra,
No começo tão dura,
E logo, à força de um provérbio,
Tão mole que até a água fura,
É porque a lembrança dura.
E cada saudade é como
Uma e(x)cada que se sobe
E, a cada passo, avança
No caminho da memória.
Tudo, porém, pode ser mais simples,
Se se fizer do papel um bloco,
Folhas ao léu
Que aceitam palavras,
Inclusive a palavra (já) dada
De jamais esquecer;
E ainda se se fizer
Da pedra, tão dura, tão sólida,
Um bloco, um monolito,
O papel de tempo
Que se deixa tomar,
Que se deixa corroer -
E não para se perder,
Apenas para ganhar uma forma.
Talvez a forma de uma metáfora.
Mas, aí, já fica comple(x)o demais
Até para mim,
Eu que ex-crevo,
Eu que ex-barro
Eu que ex-mago.
Eu que luto para não ex-quecer.
Fantasia?
Não! Só encantamento:
Ora pela palavra,
Ora pela memória.
Ora pro nobis!
Ora,
Esse mistério que é o tempo,
Esse enigma que é o vento,
Essa ilusão que é
Re-lembrar
Como se se lembrasse de ré,
Olhando-se pelo retrovisor: o quê?
Uma folha de papel
Em que ex-culpi
Todo o xis da questão.



CHICO VIVAS

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CARREGANDO PEDRAS




Trocando-me, pelo cansaço, por ti,
abandono a primeira pessoa
em troca de ser, descansado,
agora a segunda;
e mesmo que assim,
pela proximidade das segundas pessoas,
tenha direito a “vós”,
o que, de verdade, cala em mim,
nessa troca dada assim,
aparentemente gratuita,
é o desejo.

Desejo cansa,
quando o desejar não avança
e permanece insatisfeito,
tal qual uma mimada criança
que não se contenta com nada,
a menos que o tal desejo
seja mesmo o de jamais se contentar.

Mas vai que te cansas de mim,
cansado já de desdobrar-te
para satisfazeres meu desejo
de em ti descansar,
porque também hás de ter
os teus próprios desejos,
e que,
talvez por ironia,
ou apenas talvez,
porque os desejos são muito iguais,
um deles,
ainda insatisfeito,
seja o de descansares de ti mesmo.

E eu, por cuidar somente
do passeio da minha língua
pelo cardápio que me ofereces
(gratuitamente?),
posso não ter percebido que,
desejando abandonar o barco,
pulando mesmo fora do teu próprio corpo,
queiras descansar em mim,
num encontro de língua,
num recanto da boca,
visitando ambos o mesmo prato:
de doces,
de salgados,
sendo que o verdadeiro prato-cheio
não são uns, por mais doces,
nem outros, mesmo que não salgados demais,
mas sim todos aqueles tons,
sutilezas que até já conhecemos,
cujos nomes sabemos de cor,
mas que fingimos todos eles esquecer
só para calarmos a boca,
e nela, entreaberta, calar
os gostos que reinventamos.
Olhar (só) nosso próprio desejo,
Cansa.

Olhar o dos outros, cansa também,
se não estiver nesse olhar
o próprio desejo.
Se cada qual descansa suas insatisfações
no outro que também se cansa,
quando, então, nos encontraremos?


CHICO VIVAS

domingo, 1 de novembro de 2009

E MAIS NÃO DIGO



Que tenho eu a ver com isso,
Com isso de asas vermelhas coradas,
Com isso de penas brancas imaculadas,
Se não tenho fogo,
Se não acendo cigarro,
Se não choro lágrimas de sangue
E nem uso metáforas
Para cuspir, escarrar, ferir ou curar?
Se sou de mim mesmo a duplicata vencida
De um espelho que espelha o nada,
Tanto quanto não nado nada,
Nadinha de nada?

Que quero eu com isso de vida,
Da vida de agora, da vida de depois
De agorinha mesmo,
Para um depois sem nexo num dicionário frouxo
Cujas páginas amarradas a nós
Desprendem-se da brochura sem terem para onde ir?
E eu fico a pensar que posso ser
O gari feliz de ruas imundas
Carregadas de páginas soltas a rodar ao vento,
Recolhendo-as eu com olhos de amante,
Amantes de palavra(s) que diz(em) mas não prova(m)
O negar quando se quer, o querer quando se nega,
O querer negar para devolver
A prova amarga e multiplicada.

Fujo de mim e corro adiante.
Diante de mim, porta-se sempre sentado
Um demônio sem a minha cara,
Um anjo com minha dor:
E a qual dos dois primeiro me dou?
Ao dito cujo em pé e diminuído
No seu valor de sacerdote
De ritos rubros, de peito desnudo
Ou ao anjo sentado sobre almofadas lisas,
De seda que com sua pele se assemelha,
Pele sem dor, sem marca, sem cor?

Se me entrego ao primeiro que passa
E me apresento mostrando otimista
As primeiras linhas que aqui eu próprio escrevi,
Ele há de me repelir com mãos agitadas,
Sem entender o que eu quero dizer,
E eu sem saber por que sou negado,
Se me mostro com derradeira esperança.
Com as últimas palavras que aqui sei lá,
As derradeiras que aqui se lerá,
Me olhará perplexo como um louco,
Louco ele de raiva de mim,
Louco eu por exibir assim
Um papel que antecipa
O que nem mesmo eu ainda sei.
E se olho para o lado, um tridente afiado
Que retira dos meus dentes as lascas de carne,
Que costura na minha carne as marcas dos dentes;
Três dentes como uma flauta doce
Que se crava em meu peito que abusou da razão
E mais uma vez repete sua intenção
De aceitar o feitiço da música amena
E dar o braço ao anjo e ir para o alto,
E quando no alto dos píncaros fincado
Do firmamento instável de cansados imóveis,
Não mais sentir ao olhar para baixo
O medo de toda a vida de lugares sem base,
Desejarei então morrer de afeto falso
Pelo outro que deixei caído,
Esperando que eu o olhasse,
Sem sentir tanto temor:
Que valor afinal pode haver
Em subir por subir,
Sem a expectativa de descer,
Mesmo sem isso querer?

Me rouba, grito.
Me toma, clamo.
Me arranque, digo.
Me faça seu, afirmo.
Me devolva o medo, suspiro...
E já lá está ao meu lado,
E só de olhar tremo-me todo
E nem posso mais olhar o que há
De tão distante embaixo dos meus pés,
Que só de pensar rasgo-me de pavor.
Mas se for envolvido com braços fortes,
Sentindo-me quente antes de ao inferno chegar,
Compadeço-me dos olhos úmidos do anjo
Que me largou atendendo-me a mim,
Ao meu pedido de ir-me dali
Para um bem baixo, sem pressentir
-ou para o mais aquém do mais além-,
Será tanto o medo da altura que me separa
Do mínimo chão de uma pouca firmeza,
Que, sem falar, rogarei
Que me roube, que me tome,
Que me leve, que me arranque,
Que me faça seu,
Que me devolva a indecisão
De achar belo o efeito trágico
De uma lança em fogo tocando o corpo
E de achar comigo o efeito singelo
De uma doce música que me adormece,
Se alimentar de sonhos arrojados a noite densa
E se me acordar com olhos púberes.

Se vivi até aqui sem dizer sim, sem dizer não,
Posso sim viver até lá,
Dizendo assim a um, a outro dizendo não,
Iluminando com vela branca um,
Mas dizendo sim ao outro:
E deixo-os me disputarem,
Estapeando-se com recíprocas imputações
De golpes baixos, com palavras sem calão,
Até me entediar com tanto contender.

O tempo passou para mim
E eles ainda a brigarem.
Agora, sou só o nome esquecido em memórias amigas,
Amigas demais para me convencerem,
Amigas demais para que eu caia na sedução do contrário.
Mas sabem ainda de cor o nome que eu dei
À dor que me faz dizer o que nem sei,
Porque tudo isso é invenção
De uma mente confusa,
De um demente sensato,
De um lúcido fotofóbico,
De um homem -e isso é quase dizer tudo-
Que não sabe mais o que dizer.


CHICO VIVAS

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

POLÍCIA MONTADA





Monto guarda,
À espera da rainha.

Que venha sua majestade!
arrastando seu manto.

Minto!
Ele não se desfia,
nesse desfilo roído,
por mais que seja arrastado,
por mais que há tanto
se venha arrastando essa rainha,
num jogo de salão,
cercada de damas,
em que o tabuleiro é o tempo
e as peças
-bispos, cavalos, peões,
principalmente os peões,
que estes sabem montar-
são acessórios de uma moda que,
contrariando sua própria natureza,
não passa.

Enquanto, passo a passo,
tudo isso se arrasta,
monto guarda,
à espera de um cetro sem centro,
com certas inclinações pendentes,
besuntado de graxa insípida,
inodora,
que inocula...
simplesmente inocula,
freando assim, se o tem,
o caráter do verbo,
transitivamente direto.

E enquanto o cetro não se mostra
num mastro que os ares beijam,
que mal a água salga,
que sustenta velas em sua nudez de pau,
a pique...e corra,
a pique...e nique,
a pique...e paque,
eu monto guarda.

E não me perguntes: coroa?
Não saberia o que responder: menino?
A explicação é que:
que sei eu desse jogo,
que sei de xadrez,
senão de montar guarda?
E tabuleiro, para mim,
são docinhos em quadrados.

E não me perguntes: quadrado?
Eu?
Que sei eu de moda,
se sou tão passageiros?

E já imagino
que isso passe,
que não passe de moda
montar guarda.
E sendo assim,
manto de inverdades,
cetro cravejado de espinhos brilhantes
-e que picam, que espicaçam-
coroa que mal dá tempo,
que desculpa terei
para continuar na espera,
sentinela,
na guarita, querendo,
montar guarda?

Abaixo a república!
Viva a monarquia!
Viva o reino da montagem!

E quando não houver mais guardas a se montar,
todos saberão que menti.


CHICO VIVAS

terça-feira, 1 de setembro de 2009

ALONGAMENTO


A VIDA VAI SE AUTO-EXPLICANDO.

E QUERENDO TERMINAR LOGO A LIÇÃO,
TODO O CORPO SE DOBRA
EM SUA RIGIDEZ SEM SOLUÇÃO...
E FIM.

ENQUANTO HOUVER O QUE EXPLICAR,
GARANTIDA ESTÁ
A FLEXIBILIDADE DOS CORPOS,
TIRADA À RIGIDEZ COM QUE MASCARA
AS DOBRADURAS DE QUEM NÃO ESTÁ MORTO...
NEM NADA.

ÀS VEZES SOBRAM AINDA LIÇÕES,
QUANDO O ALUNO JÁ SE DOBROU
A TODAS AS POSSIBILIDADES
DE ENCONTRAR NOVAS SOLUÇÕES,
E NÃO AS ENCONTROU,
SEM SABER QUE A VIDA É AUTO-EXPLICATIVA...
E FIM.

SÓ QUANDO TUDO ESTIVER,
TINTIM POR TINTIM,
SEM UM ÚLTIMO BRINDE SEQUER,
MUITO BEM ENTENDIDO,
É QUE É O FIM.

NÃO HÁ VIDA QUE ESCAPE
DE SUA AUTOEXPLICAÇÃO;
QUE, QUANDO TUDO FOR COMPREENDIDO,
AINDA INCORRA EM ANIMAÇÃO
PARA DOBRADURAS, ORIGAMES,
PARA RIGIDEZ POR ENFADO,
PARA CORPO MOLE SEM OBRIGAÇÃO.

SE TUDO BEM DITO ESTÁ,
MALDIÇÃO!...
INCLUINDO NO TUDO O TODO MALDITO,
NÃO HÁ MAIS BEM, NEM MAL NÃO MAIS HÁ.

SOBRA APENAS UM CORPO ESTENDIDO,
DIFÍCIL ATÉ DE DOBRAR.

A MORTE, PORÉM, É DISSIMULADA
E PODE SE ACHAR, MESMO SE DOBRADA,
SOBRE UMA EXPLICAÇÃO INERTE.

QUANDO ME CURVO SOBRE TEU CORPO: VIVO!,
DOBRANDO-ME A MAIS NÃO PODER,
E O TEU, PODENDO DOBRAR-SE,
RÍGIDO, PARECE MORRER,
ANTES MESMO DE SE AUTO-EXPLICAR:
EIS O FIM...

E O FIM ÀS VEZES SOBREVÉM
SEM QUALQUER EXPLICAÇÃO,
QUANDO A ESQUINA JÁ SE DOBROU,
AINDA QUERENDO ENTENDER
POR QUE DEPOIS DE TUDO ACABADO,
AINDA VIDA, UM TINTIM, SOBROU:
CADÊ DISSO TUDO A RAZÃO?


CHICO VIVAS

sábado, 1 de agosto de 2009

SURDO-MUDO




Se cochichas ao meu ouvido,
eu me derramo no teu ombro;
se me tomas de frente,
eu, por meu lado, te assombro;
se sopras um cálido hálito na minha nuca,
eu nunca mais deixo de ser vento;
se deixas-me e cruzas teus braços,
desembaraçando-te de mim,
vingo-me com nós,
aperto o cinto,
mas não vou.


Voo(-me) embora de mim,
mas não saio de perto de ti.
Se comunicas à minha boca
uma boa notícia com a tua,
eu não ouço
porque minha língua invertebrada
adormece a esse teu falar,
e se a mordo, não a sinto,
se ferida, não assento,
se sentir, não sou santo,
e isso não assenta em mim,
se, no entanto, for eu a despejar,
do meu idioma direto no teu
as notícias, boas ou más,
e sentir tua língua dormente,
passo por cima como um tanque,
bem devagar, de vagão,
para nunca mais parar,
para sempre sofreres muito.


Se me dizes que me amas,
com olhos em sincera expressão,
se me olhas como chama
a incendiar a razão,
se me ouves com tranquilidade
como a beberes meus monossílabos,
como se fossem de longa duração,
e ainda falas com decisão,
quando em mim rugem dúvidas,
se me abraças,
se me tomas,
se me queres,
então digo-te: não!


Porque no papel posso mentir,
mas na realidade, ficção.



CHICO VIVAS

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O QUE É O QUE É?




Em bandas sonoras
Ou em bandos de dois,
Surgem ao acaso
Essas aves de repente,
De rapina, rapaces,
Unhas longas, afiadas,
Ou curtas quase rentes
À carne sangrando.

Procuram cantos.
E se esquinas não há,
Escondem-se em si
Ou exibem-se, insurgentes, por aí,
Contra toda gente,
Sem qualquer discrição.

Se se as descrevem,
São tantos os detalhes em jogo,
Que não se apanha o conjunto,
Mas mesmo assim,
Há sempre que queira lhes bater:
São instrumentos de sopro
Que na boca não cabe mais;
E são cordas de metal
Que não ornam o pescoço;
São surdos, apesar da algazarra;
São bumbos, com todo rebolado;
São tambores nessa tribo.
Uma melodia infernal,
No que o inferno tem
De muito bem orquestrado.

Não há céu que lhes baste.
O paraíso dessas aves é a noite
Vivida todos os dias:
É um encontro, uma busca.
Dispersam-se, despedem-se,
Despedaçam-se, desgraçam-se,
Degeneram, desejam,
E quanto há para dizer,
Mas muito mais para calar,
Que a vida de cada um
Sabe já o que ela (lhe) é.
E é curta para o longevo,
E é longa demais para quem
Tenta contar essa vida
Em quatro letrinhas fatais.

Que sejam muitos, sejam poucos!
Que seja muita ou pouco seja!
Morrer a cada momento
É a função primordial de toda vida,
A vida toda.
Morrer a cada desejo
É viver cada momento.
E se de um momento para outro morrer,
Foi só o último desejo desta vida.
E pronto!



CHICO VIVAS

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Arquivo do blog