segunda-feira, 1 de junho de 2015

GÊNERO




 

Vejo tuas garras e não desconfio das unhas,
mas sei que é homem, encontrada fera:
onde um fio, bigode penteado,
onde patas, um toque de animalidade,
onde cauda curta, rabo avantajado,
onde curvas, reta perseverança,
onde retas, pura observância
dos caminhos que se desviam
de uma trilha já costumada
a ponto de trazer em si, riscadas,
pistas dos pés, patas a quatro,
pelo caminho reto
(e se ele curva, retifica a fera)
sem balançar, discreta, a causa
(homem sem rabo preso)
mas ocultando as garras
e só mostrando as unhas esmaltadas
e o bigode tão bem aparado
que dele só aparece,
nesse emaranhado de palavras,
um único fio, viril, comportado,
hirsuto, tratado,
e lá pelas tantas,
depois de toda essa pataquada,
vindo a fera, homem predestinado,
seguindo sua trilha, esse trem-de-fera,
ora vejam lá!
ora, e não se pode ver só
porque quem vem lá,
atravessando o caminho do homem,
deixando-lhe, interceptado, uma fera,
é uma fila de patas atravessando a estrada,
e não apenas quatro essas patas,
e talvez por serem tantas,
ruidosas vêm, com pataquada,
vendo a fera selvagem tornar-se
mansinho homem civilizado,
parando, com olhos que não escondem
a barbárie em vermelho insistente,
para que inocentes passem
todas essas patas em branco,
sem sentirem culpa
por terem parado o destino
de um homem que leva seu rabo adiante,
na cauda dos seus próprios passos,
agarrado à esperança
(nem que para isso tenha, escandaloso,
de esmaltar as unhas, esverdeadas)
de ver seu fio, um bigode basto,
transformar-se em bigode, fio sem laço
com a mais dura realidade.
Passadas as patas,
de novo o homem, novamente a fera
olhando para os lados só para ver
se outra vez terá de parar
ou se desta, agora vai,
vai caminhar com passo de pata,
gingando seu corpo num ritmo fanhoso
de homem reto -um dia curvo,
de fera curva -um dia curvada,
de fantasia quebrada -um dia...
um único dia e já fantasia completa,
consertada,
carente, no entanto, de orquestração adequada
que faça, fera, homem mais rebolado,
sem temor de ter de empenhar,
para garantir a fera que é,
um solitário fio de bigode.


Dança, homem, ao som da fera!
Fica de quatro sobre as patas!
fica sobre duas patas, gozando
toda essa pataquada
(com espasmos fanhosos
que formam uma orquestra afinada)
que insiste em dizer
os nomes próprios com substantivos abstratos,
sendo obrigado uma hora
a parar, civilizado,
para deixar passar, uma fera,
uma fila de sentidos desconcertados
ou umas patas -que isso seja!
Um homem que devore
um homem ou quatro feras,
ainda na mesma estrada
do que não é, levando avante,
ao que é, que nunca chega.

Se me curvo, íntima fera,
à realidade de homem,
retifico o que era errado
e erro assim no acerto,
atraindo a ira do maestro.


Se de quatro, a batuta...
Se de três, a bengala...
Se de dois, tudo muito reto...
Se só eu, um solitário...
Se menos ainda...uma fera.




CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de maio de 2015

FIAT LUX





O excelso homem ascendeu,
Finalmente,
Aos céus.
Mas como chegou de surpresa,
Não havia luz a sua espera.
E assim o homem elevado
Levou, com disfarce, a ponta do dedo
À boca sua que sorria amarelo;
Molhou-a com a ponta da língua,
Acendendo o dedo
E deixando, ali, avermelhada,
A chama de uma palavra náufraga.
Uma dessas da qual não se sabe
como se salvou da água de sua boca,
Num daqueles dias intensos
De tempestade de desejos,
Quando se olha, olha...
E é a boca que responde.

Então, com essa lanterna improvisada,
Foi abrindo caminho nas trevas:
Mas como, não estava no céu?
E que faz ali essa escuridão
Que é a luz dos infernos?


Sem sinalização adequada
Ou encoberta pelas nuvens
Que crescerem desordenadas,
Como mata avançando pelas margens
E devorando a estrada,
Ele errou de caminho.
Supôs que subindo sempre,
Indo para cima sem parar,
Mais cedo ou mais tarde,
Que o tempo aí (e aqui) já não importa,
Era no céu onde desembarcaria,
Já que sempre soube de ouvir falar
Que o inferno, ínfero, é reino de baixo,
E como, então, poderia pensar
Que esse antônimo dos prazeres,
Que não é sinônimo de Antonio dos Prazeres,
Era só uma pista vicinal
Ao sinônimo de tudo aquilo
De que o antônimo é o contrario?
E ainda, que mal pergunte,
Que se pergunte a si,
Não é lá, com mil demônios!,
Em que o fogo é eterno
E as labaredas se elevam tanto:
E como esse homem chegou a tanto?
Por que não tomou - ou roubou,
Que ali diferença não faz -
Uma chama para clarear
Seus passos na trilha escura,
E precisou lamber o dedo
E com água da boca acender seu pavio,
Com o fluido de uma palavra tão rubra
E que com braçadas bem ágeis
Livrou-se de ser engolida,
Como, aliás, tantos dos seus desejos?

Onde fica a saída?, pergunta.
Onde entro para poder sair?, repete.
Onde está o céu que me espera?, insiste.
E não há ninguém para lhe responder.

O homem que subiu tão alto
Chegou ao mais baixo de si,
E não por ter se adiantado
Pelas portas - e portas aí não há - do inferno,
Mas por ter trocado o desejo vivo, rubro,
Pelo simples e cândido olhar;
Por ter-se satisfeito em desejar
E na boca muita água acumular,
Crendo que assim subia
Lentamente os degraus,
E que mais dia menos dia,
Nessa vida de misérias,
Ao céu chegaria.

Mas errou de caminho
E foi no inferno parar.
A bem da verdade, já havia
Bem antes errado de caminho,
Quando ainda nem subia;
Foi desde então que aprendeu
- e não se lembra de quem lhe ensinou -
a acender a ponta do dedo
Com a saliva da ponta da língua,
Eximindo-se de provar
O fogo de outra boca.
E agora, vejam só!,
É só fogo o que há,
Mas nenhuma “boquinha” achará.

Que céus, que nada!
Que inferno! Eis tudo.
E sua técnica, a de querer
Só com os olhos desejar,
Parou de funcionar,
A ponto de sequer conseguir
Aquela chama apagar,
O fogo do dedo aceso na língua,
Vendo tudo naufragar.



CHICO VIVAS

quarta-feira, 1 de abril de 2015

HIPERTROFIA PEITORAL





O TÓRAX APRENDIDO
NAS PRIMEIRAS LIÇÕES DE ANATOMIA
EM PEITO SE TORNOU,
DESENHADO NO PAPEL,
ESCULPIDO NA CANÇÃO,
ENCRAVADO ONDE ESTÁ,
COM A RIMA MAIS FÁCIL QUE HÁ.

TOQUEI-O, UM DIA, ASSIM,
PERCORRENDO-O, PONTO A PONTO,
A PONTO DE QUASE DESCOBRIR
A REAL EXTENSÃO DA LINHA IMAGINÁRIA
QUE O DESENHOU,
E ENCONTREI VÁRIOS (DE) NÓS,
ALGUMAS NAUS ENCALHADAS,
CERTAS VELAS JÁ CORROÍDAS
PELO TEMPO QUE BATE NELAS,
E A LINHA VIROU NOVELO,
E A NOVELA VIROU HISTÓRIA.

TOQUEI-O, NOUTRO DIA QUE ME SOBROU,
ALISANDO-O DE PONTA A PONTA,
E LOGO UM RELEVO APONTA,
LOGO APONTA UMA BAIXADA:
SÃO ALTOS E BAIXOS ESCULPIDOS,
SEM UM PORTO CONSTRUÍDO PARA AS NAUS,
E QUASE QUE DIGO PARA NÓS,
SEM MÃOS ÁGEIS QUE DESFAÇAM
NÃO AS NAUS, SOMENTE OS NÓS.

QUANTOS DIAS AINDA TEREI
PARA PERCORRER, NÃO SEI,
O QUE SE ESCONDE NUM PEITO.

EIS AGORA O ÚLTIMO DIA JÁ,
AQUELE EM QUE TE TOQUEI,
NUMA EXPERIÊNCIA DE CIÊNCIAS,
DURANTE UMA AULA DE ANATOMIA:
IMAGINEI(-ME) PERCORRENDO TEU TÓRAX,
MAS FOI EM TEU PEITO QUE VIAJEI,
NUMA DAQUELAS NAUS QUE VIRÁ
(VIRARÁ?)
NO MEU PRÓPRIO LAGO LOGO MAIS ENCALHAR.
E NÃO ENCONTRARÁ NÓS
(SERÁ QUE NOS ENCONTRARÁ?)

POR QUE SÓ EM MIM?
POR QUE EM TEU PEITO NAU NÃO HÁ?

MOLHO A PONTA DO DEDO NA LÍNGUA,
BANHANDO-A NA SALIVA,
FAZENDO-O BORRACHA À MÃO.
E TENTO AGORA APAGAR O DESENHO,
MAS AINDA HÁ NAUS.
COM GOLPE DE DEDOS DA MÃO ESQUERDA,
TORNADA EM MARTELO VORAZ,
QUERO DESTRUIR TUA FORMA.
E SÓ CONSIGO
NÃO TE ESQUECER JAMAIS.


CHICO VIVAS

domingo, 1 de março de 2015

ISSO (SE) TRATA DE QUÊ?



Trouxe comigo a flauta transversa.
Afônico, afásico, atônito e à toa.
Sem carro, com braços, sem pés: cadê o freio?
Toco louco em volta da toca
E expulso apressado o animal dormindo.
Vejo-o correr pelos campos sem lápide,
Sobre covas fechadas sem cruzes quebradas;
Grama aparada sugerindo paz
Que inspirado, suado, solto,
E, molhado, afino o instrumento
Que vibro afoito
Com a música nova que envolve a nevoa
Que se forma sobre mim,
Acima da minha cabeça,
Que se desmancha sob o céu,
Acima da minha cabeça.

Acima da minha cabeça, tanto resta
Notas persistentes de um eco que destoa
Da repetição diminuindo da última nota,
E percebo, bobo, que não há montanhas ao longe
E giro louco à procura de um longe.
E a vertigem fecha meus olhos escuros.
E sinto estar num mundo diverso.
E ao retornar, em tantas idas e vindas,
Sem nenhum longe encontrar,
Toco o mais distante e o alcanço com a mão.
Dirijo-me ao mais perto e desfaço o sonho.

Percorro minha anatomia nobre
E descubro a geografia dos córregos.
Removo com o dedo curto a ferida nobre
(que por nobreza sempre mantenho silenciosa)
e ao retirá-la, desvendo a profundidade do laço.

Manipulo assim sensações que sobem e descem
E subo e desço nesse estado manual,
E entorno o rio de águas cálidas
(grossas , espessas, esposas sem filhos)
Num dia em que não houve temporal.
E essa surpreendente irrigação
Fertiliza as margens do meu Nilo,
E eu mesmo à sua borda,
Que é a minha própria margem,
Espero, espero...
Que baixem a crista as ondas sonoras
Para plantar nova safra na faixa molhada,
Deixando passar a estação então,
Esperando chegar a outro mais propícia
Para colher o que à mesa com colher
Há-de alimentar a boca murcha,
Exalando um tom sem cor
De uma paleta porosa e suspeita
De uma aquarela à prova d’água
De um quadro contido numa moldura oval,
Como um espelho trabalhado com esmero
Em que o vidro é pintado e não muda
E só a própria moldura reflete interesse
Pelas variações da luz do ambiente calado
Em que reina, absoluto, solitário quadro,
Nesse museu já roubado em seu patrimônio,
Restando apenas essa estranha obra,
Feita com arte por um diabo atento,
Que jurou por Deus um dia terminá-la
E foi para o inferno por não ter cumprido a promessa.

Mas o que se esperava de um diabo?
Que desse ao mundo um momento de suprema beleza?
Logo ele que dá ao mundo a contrapartida do belo
(e que esconde sua própria beleza)
E não porque Deus assim o fez,
Mas só porque o anjo caído -e que se levantou: graças da Deus!-
Não conseguiu a tempo terminar seu trabalho
E passa agora suas horas procurando se divertir,
Começando a fazer o que não pretende jamais terminar.
E, cansado já, nós, com tanto não-acabar,
Rogamos, mãos postas, ao Altíssimo
(com olhos devidamente baixos)
Que nos leve, e suporte por nós,
Pesados como já estamos,
Os quilos a mais nessa carga injusta
E que então possamos plasmar sua galeria de obras perfeitas
Com quadros quadrados e espelho ovais,
Como rios que correm,
Com pés que nunca param
-e nenhum deles se cansa-;
com música que sai diretamente de uma madeira roída
e faz saltar da toca a toque de caixa
fadas e grilos com gritos abafados.

Ah! esse céu que dá aos corpos acidentes aceitos
E distrai os consertos para mantê-los errados,
E acerta com pulso os ponteiros do relógio,
E que chama quando quer
E que cala quando muda de ideia,
Copiando sua volubilidade das nuvens sinceras,
Que finge ter olhos em todos os cantos do mundo
Ter memória de todos os tempos,
Ter presença em todos os sítios,
Ser vigia de todas as almas.

E isso que se diz ser o paraíso conquistado
É um inferno com chamas redobradas
Em que cada palavra tem sílabas exatas,
Cada homem tem uma palavra que chama,
Todo fogo tem seu sinônimo,
Tudo é sempre igual ao seu semelhante.

Que salvação, afinal, é essa
Que dobra os joelhos e afunda a cabeça
Na lama doce do não precisar pensar
E assim pensa
-este foi seu último pensamento-
Que um riso curto é o máximo de prazer,
Quando gozar pode estar em ficar sem palavras
E em até contar que se gozou em palavras.


CHICO VIVAS

domingo, 1 de fevereiro de 2015

SE ARREPENDIMENTO MATASSE...


MySpace Graphics



Se eu lhe der a mão,
você talvez me dê a sua:
e o que farei com três mãos?
Se eu lhe piscar um olho,
é possível que você sorria:
então vou precisar de uma mão,
porque não saberei o que falar,
e para esconder esse meu não-saber,
também eu vou querer sorrir;
e se com isso, em resposta,
você um olho me piscar,
os meus hão de se desviar,
e meu sorriso se contorcerá
em esgares indefinidos,
e minha mão, a essa altura,
por bolsos esquecidos procurará,
e não os há-de achar;
tentarei, à força, abrir
um falso bolso na roupa sem vincos.
Ponho as mãos na cabeça,
sem decidir o que fazer.

Por que é que fui sorrir?
Por que lhe estendi a mão?
Por que pisquei um olho?
-e deste posso dizer
que, absolutamente, não o pisquei,
foi somente um cisco, uma poeira.
Diante de tal desculpa,
você de novo sorrirá,
desmascarando o meu fingir
e aí, desnudado,
decididamente sem bolsos,
onde essas minhas mãos ocultar?

Cruzarei-as nas costas
e com elas não me preocuparei mais.

Os olhos semicerrados
já por si não são preocupação.

Nisso tudo só lamento
perder de vista seu sorriso,
nem tanto pelos meus olhos pouco abertos,
mas pela sua boca ocupada
por mim,
num beijo.

E assim tão de repente,
como que por encanto,
já sei tudo o que devo fazer.


CHICO VIVAS

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ILUSÃO DE ÓTICA

 

Os olhos da minha amada
são como janelas debruçadas
sobre um mar,
mediterrâneos.
Entreabertas a um sopro da manhã,
piscam, como se sentindo
invadir por um inimigo
de lanças em punho,
com pontas afiadas em fogo brando,
embora sejam só setas inocentes,
inofensivas, esbraseadas,
mas para uma rosa desfechando
(não setas, não lanças, mas abrindo-se)
e que merece o próprio nome
do que para fogueiras em botão
que um apaixonado reúne
num ramalhete apressado,
apertadas todas as rosas pelo talo,
e o oferta, ramalhete em punho;
e ao livrar-se, sorridente,
desse buquê de rosas em brasa,
quente ficou sua mão,
de tanto apertá-las,
sem se dar conta de que
segurou-as pelos espinhos.

Os olhos da minha amada
abrem-se amplamente
ao dia partido ao meio,
tendo ao fundo dessa hora
o soar das badaladas
de uma dúzia de sinos distantes.
Cegas janelas por tanta luz
desse sol mediterrâneo,
baixam-lhe um toldo, pestanejam,
e encaram o brilho argentino
sobre o mar todo esticado,
quase sem vincos,
lençol sobre leito virgem,
salpicado com renda, bordado,
com espumas discretas que se desfazem
tão rapidamente quanto o dia passa,
pois é já hora dos olhos,
que são janelas de minha amada,
entrefecharem-se, sonolentos,
aos primeiros ouros a enfeitar
as águas calmas do mesmo mar,
anunciando a noite que virá,
trazendo buenos aires, querida.

Ainda róseos, distante aurora;
ainda em fogo, perdida paixão;
ainda raios, rua esquecida;
ainda espinhos cravados na mão.

Mas os olhos resistem em se fechar,
embora o cansaço do dia contado,
a menos no calendário,
insista em trancar as janelas
que agora se debruçam
sobre as vias de estrelas,
escuras estradas de líquidas veredas,
caminho molhado de atalhos absurdos,
sendas luminosas em texturas de seda.

Cerraram-se, enfim,
da minha amada suas janelas.
Toda a casa, sua fachada,
imobilizou-se em palidez.
E eu que esperava
o correr dos astros, ansioso,
para novamente ver debruçados
aqueles olhos sobre o mar,
tive eu mesmo, com meus dedos,
cheios de espinhos coagulados,
de baixar-lhes para sempre,
eternamente para nunca.

Nunca mais lanças em raios!
Nunca mais ouros e negros!
Para sempre esse morrer!

Restam-me, para quê?,
os meus próprios olhos debruçados,
mas estes são apenas
como janelas pintadas
num quadro realista,
despertando a fantasia
dos que olham tal pintura,
imaginando o que se passa
por detrás daqueles olhos.
Eu mesmo, porém,
cujos olhos já sem cor
são como janelas desenhadas,
não vejo mais nada.
E se passarem na minha frente,
carregando um quadro pintado
em que se vêem olhos abertos,
como janelas coloridas,
eu nada imaginaria,
a não ser minha amada,
cujos olhos são um eterno branco
debruçados sobre o nada.


CHICO VIVAS

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

FIAT LUX



O excelso homem ascendeu,
Finalmente,
Aos céus.
Mas como chegou de surpresa,
Não havia luz a sua espera.
E assim o homem elevado
Levou, com disfarce, a ponta do dedo
À boca sua que sorria amarelo;
Molhou-a com a ponta da língua,
Acendendo o dedo
E deixando, ali, avermelhada,
A chama de uma palavra náufraga.
Uma dessas da qual não se sabe como
Se salvou da água de sua boca,
Num daqueles dias intensos
De tempestade de desejos,
Quando se olha, olha...
E é a boca que responde.

Então, com essa lanterna improvisada,
Foi abrindo caminho nas trevas:
Mas como, não estava no céu?
E que faz ali essa escuridão
Que é a luz dos infernos?


Sem sinalização adequada
Ou encoberta pelas nuvens
Que crescerem desordenadas,
Como mata avançando pelas margens
E devorando a estrada,
Ele errou de caminho.
Supôs que subindo sempre,
Indo para cima sem parar,
Mais cedo ou mais tarde,
Que o tempo aí (e aqui) já não importa,
Era no céu onde desembarcaria,
Já que sempre soube de ouvir falar
Que o inferno, ínfero, é reino de baixo,
E como, então, poderia pensar
Que esse antônimo dos prazeres,
Que não é sinônimo de Antonio dos Prazeres,
Era só uma pista vicinal
Ao sinônimo de tudo aquilo
De que o antônimo é o contrario?
E ainda, que mal pergunte,
Que se pergunte a si,
Não é lá, com mil demônios!,
Em que o fogo é eterno
E as labaredas se elevam tanto:
E como esse homem chegou a tanto?
Por que não tomou -ou roubou,
Que ali diferença não faz-
Uma chama para clarear
Seus passos na trilha escura,
E precisou lamber o dedo
E com água da boca acender seu pavio,
Com o fluido de uma palavra tão rubra
E que com braçadas bem ágeis
Livrou-se de ser engolida,
Como, aliás, tantos dos seus desejos?

Onde fica a saída?, pergunta.
Onde entro para poder sair? repete.
Onde está o céu que me espera? insiste.
E não há ninguém para lhe responder

O homem que subiu tão alto
Chegou ao mais baixo de si,
E não por ter se adiantado
Pelas portas -e portas aí não há- do inferno,
Mas por ter trocado o desejo vivo, rubro,
Pelo simples e cândido olhar;
Por ter se satisfeito em desejar
E na boca muita água acumular,
Crendo que assim subia
Lentamente os degraus,
E que mais dia menos dia,
Nessa vida de misérias,
Ao céu chegaria.

Mas errou de caminho
E foi no inferno parar.
A bem da verdade, já havia
Bem antes errado de caminho,
Quando ainda nem subia;
Foi desde que aprendeu
-e não se lembra de quem o ensinou-
a acender a ponta do dedo
Com a saliva da ponta da língua,
Eximindo-se de provar
O fogo de outra boca.
E agora, vejam só!,
É só fogo o que há,
Mas nenhuma “boquinha” achará.

Que céus, que nada!
Que inferno! Eis tudo.
E sua técnica, a de querer
Só com os olhos desejar,
Parou de funcionar,
A ponto de sequer conseguir
Aquela chama apagar,
O fogo do dedo aceso na língua,
Vendo tudo naufragar.



CHICO VIVAS

sábado, 1 de novembro de 2014

MOBILIÁRIO


Teu corpo, almofadas confusas
para minha cabeça negra, olhos antigos,
afunda sob o peso da carne nova
e sobe...como maré que avança.

À sua iminente quebra, nas pedras,
faço-me rocha, duro na queda,
mantenho-me firme, confiante em mim,
mas não descruzo os dedos.

Deixo-me, pedra, coração mole, lavar,
só não me deixo, água, levar;
fico encharcado, e desejo um charco,
mas só me ofereces em lugar da lama,
água benta já tão suja com teus améns:
é isso,
que assim seja!

Um dia farás, confuso,
das tuas almofadas corpos tecidos
com fantasia quadrada
e nelas,
ao custo de um recheio sem doce,
deitarás como minha a tua cabeça,
num contorcionismo sem atrativos
porque se dobre sobre si mesmo
e não se desdobre sobre outro corpo,
porque em vez de mostrares
teu corpo entrando em outra fantasia,
só exibirás almofadas afundadas,
como um baixo-relevo de cabeças
que um dia em teu corpo "pensaram",
pensando que assim curavam-no,
pensando que assim curtiam-no
como couro bem trabalhado
com o qual se não se faz almofadas,
ainda que seja possível,
constroem-se belas fantasias,
mesmo que em contorções costumadas.

Isso tudo sem pesar os prós,
contra todos os contrários
e a favor tão-somente do vento leste
que sai da tua boca em suspiros,
desejando -que água na boca!-
que suspiros não saiam,
entrem-te pela goela adentro,
entretendo tua língua,
que ora vai ao céu
arrancar fragmentos de suspiros,
e ora, que diabos!,
acabou-se o que era doce.

E esses suspiros mordidos
revelam que não têm nada por dentro,
nada a dizer, todos aerados
como se fossem uns cabeças-de-vento;
tão nada que se se os morder,
morde-se neve não gelada,
gélidas claras batidas...
com a mão,
porque eletrodomésticos
podem ser boas batedeiras,
mas fazem tudo muito rápido,
enquanto que com a mão: não!,
mesmo que disso ela saia
como se se despedisse de um trabalho sujo,
embora sem marcas indeléveis,
até mesmo fugazes essas marcas
na lembrança das fantasias.

Então, que se batam as claras,
às claras ou às escondidas,
sem toc-toc na porta,
com suave gostinho de limão,
aroma verde de casca raspada,
como almofadas sem pelos,
como peitos bem recheados,
tanto de doces suspiros
quanto de salgadas águas
que dos olhos se ejetaram
e vieram se intrometer no meio
destes versos sem sabor,
insípidos,
insistentemente cúpidos nas entrelinhas,
ainda que andem tão na linha
que parecem um trem danado de bom
essas almofadas vagas,
esses vagões acolchoados
de um trem-bala
em que não se encontram suspiros,
e nem mesmo bala -que trem esse!

E como nas longas viagens,
mesmo nas que, de relógio, duram pouco,
mas que na memória, infinitas jornadas,
precisa-se em alguma hora,
apoiar-se a cabeça num lugar macio,
tendo almofada à mão,
hei de preferir teu corpo aos meus pés.

E piso.
E teto.
E entre o mais baixo de nós,
que nem precisa ser eu,
e o mais alto de todos
há um recheio de desejos.

Se te piso, sou ex-mago,
já sem poderes de varão,
com varinha alquebrada.
Se te teto, vou às alturas,
desequilibrado,
como criança que se ocupa
em apoiar uma cadeira sobre a outra,
e são muitos esses assentos,
como é única a almofada,
só para alcançar no alto,
ainda que bem abaixo do teto,
um pote de suspiros
(que não alcançará
porque as cadeiras caem,
deixando(-me) com um pote de mágoas).

E então, no chão,
lavo as mãos
para sujá-las de novo
batendo claras calmamente,
sem pressa para fazer neve,
ansioso pela primavera.

Verão!...só não vêem porque não mostro
para fingir que ainda babo por almofadas.



CHICO VIVAS

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

BAIXAS ASPIRAÇÕES




De cima, desejos abaixo,
de baixo, suspeitas acima:
mas suspeitas de quê?

Não! há somente suspeitas
e não alguém a suspeitar
do que está por cima,
nalgum ponto mediano,
que nem precisa estar no meio,
no exato ponto em que
esse desejo partido
encontra-se com subida suspeita.

De cima rola incessante,
qual rocha com o tempo arredondada,
o desejo que do alto olhou
e rumou ao baixo, apressado.

De baixo a suspeita se esforça
para boa altitude ganhar,
elevando-se a quase desejo,
já um desejo de chegar
em cima...

Desejos baixos desejam ascender
e dessas faíscas primordiais
suspeita-se de que logo virá
fogaréu capaz de subir
colinas acima, riachos abaixo.

Sobre altos desejos suspeitas não há.
Há só quando eles,
no mirante dos olhos a queimarem,
debruçam-se vendo abaixo,
sobre si suspeita grassar:
se se mantêm altos como desejos,
é só desejo e fome não é;
se se abaixa, atraído
pelas suspeitas que há,
debruçado, perde o equilíbrio
e lascas de si caem no alto mar,
aumentando suspeitas de baixo,
de baixo desejo.

Não há altas suspeitas
nem baixas há.
Há só a inveja
de um desejo no alto,
acima de si colocado
e que se deixa cair
em fragmentos por ali,
uns pedaços rolados
do que no alto resiste de baixo.

Excluamos a justa medida,
nenhum ponto de encontro,
nenhum aperto de mão,
nada de acordo de cavalheiros:
só um cavalo alado,
que é o desejo do alto,
querendo voar bem baixo,
que é o desejo consumado.

Se riem as suspeitas,
levantando-se a si mesmas,
suspeitas de que acima está.

Ria-se das suspeitas
que só podem suspeitar
do baixo que lhe dão,
enquanto baixo ou alto,
bem melhor é desejar,
mesmo que no alto,
mesmo que sob suspeita,
contanto que uma hora desça.

Pode até ser meio-dia,
ou duas horas já ser,
não é preciso ser meio,
nem é necessário ser dia:
é só deixá-lo descer.

Que venha o desejo do alto,
que role aos olhos suspeitos,
que caia arredondado no chão,
e assim agora bem baixo
possa olhar sua antiga altura.

E se suspeitas tiver,
isso é só o desejo
de lá para cima voltar
e de novamente lançar-me no abismo,
satisfeito desejo.



CHICO VIVAS

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

DIZER NEM POSSO IMAGINAR



Há palavras que, sinceramente, não digo:
E nunca jamais será uma delas.
Mas basta a musa à frente,
Atrás a musa basta estar,
Para a língua tremer,
O pensamento vacilar,
E as palavras todas
Desejarem sair.
Nunca! digo,
Mas de nada isso adianta,
E jamais vai adiantar.
Acabo por dizê-las
E, convicto agora do que digo,
Digo-as sem convicção,
A ponto dos meus maxilares se ressentirem
Com tanta palavra que digo,
Sentindo dor inaudita
Que, apesar do incomum,
Não inaugura inédita dor;
E eles se sentem assim
Por terem de se conformar,
Conformados, à forma
Desse meu estranho dizer.
Não posso parar,
Mesmo se quero,
E com isso quero mesmo dizer
Que não posso,
Por mais que deseje parar,
Por mais que essa musa
Não me inspire confiança.
Creio até que não é ela
Que me solta a língua presa,
É esta mesma que se desenrola,
Que inventa uma musa tesa,
Hierática,
Soberba,
Ora salobra,
O que me parece ser
Mais uma manobra da língua,
Ora língua doce,
E doce ser me parece,
Embora a outro possa parecer
Uma insípida língua torpe.
As palavras reveladas
Escondem mais do que revelam,
E nesse esconder-se,
Nem as musas sei quem são.
Talvez sejam negativos a serem revelados,
Talvez, positivamente,
Não passem de um clichê
Já amarelado,
Seja por ter sido usado tanto,
Passado por tantas mãos,
E isso sem falar das muitas línguas
Pelas quais deve ter passado a musa,
Seja por ter há muito entrado em desuso,
Francamente.
Marginal de mim mesmo,
Sempre à beira dos meus penhascos,
Sem jamais me precipitar,
Apesar da respiração da musa na minha nuca,
Incentivando-me a desabar,
Sou apenas circunstancial em meus acasos,
Definitivo em minhas passagens,
Hesitante na minha firmeza
E firme na minha fraqueza.
E pela fraqueza dos versos passageiros,
Vê-se já quão firme sou.
Circunstancialmente apalavrado,
Eternamente verse já dor.
(mas isso é passageiro!)



CHICO VIVAS


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