
ADORO A PALAVRA
E QUEIMO INCENSO A SEUS PÉS:
TALVEZ EU SEJA UM PLATÔNICO.
ADORO PLATÃO, A PALAVRA,
COM SEUS OMBROS LARGOS.
E A SEUS PÉS QUEIMO INCENSO,
SEM, PORÉM, QUEIMAR-LHE OS PÉS
PÉS, PALAVRA, ADORO TAMBÉM,
E QUEIMO, AO PÉ, INCENSO,
ESPARZINDO PERFUME EM VOLTA
QUE ME SOBE À CABEÇA
E ME ENTONTECE.
E AINDA SOBE À CABEÇA DOS PÉS
COMO SE FOSSE A CABEÇA:
TUDO POR CAUSA DO INCENSO
QUEIMADO AO PÉ NÃO DA LETRA,
MAS DA PALAVRA INCENSO,
SEM PÉ, SEM CABEÇA.
ADORO, SIM, PALAVRA QUE É:
QUE A'DORO.
QUEIMO, POIS QUERO QUEIMAR,
A PRÓPRIA PALAVRA
E COM ELA INCENSO,
TURÍBULO À MÃO,
TODA E QUALQUER PALAVRA.
O TURÍBULO, DE PRATA QUE É,
ESSE NÃO POSSO QUEIMAR,
ESSE TEREI DE FUNDIR.
FUNDIR OS PÉS,
FUNDIR A CABEÇA.
ENFIM, EIS A CABEÇA TÃO SÓ,
TÃO CHEIA SÓ DE PALAVRAS:
QUEIMÁ-LA? FUNDI-LA?
QUEM SABE SE UM BOM INCENSO,
MISTURA DE MUITAS PALAVRAS,
NÃO ME SUBA, DOS PÉS, QUEIMANDO,
ATÉ A CABEÇA,
FUNDINDO-SE,
E VIRE-A DE PONTA,
E EU PASSE A ADORAR
TODA PALAVRA INEFÁVEL.
CHICO VIVAS
QUEIMO, POIS QUERO QUEIMAR,
A PRÓPRIA PALAVRA
E COM ELA INCENSO,
TURÍBULO À MÃO,
TODA E QUALQUER PALAVRA.
O TURÍBULO, DE PRATA QUE É,
ESSE NÃO POSSO QUEIMAR,
ESSE TEREI DE FUNDIR.
FUNDIR OS PÉS,
FUNDIR A CABEÇA.
ENFIM, EIS A CABEÇA TÃO SÓ,
TÃO CHEIA SÓ DE PALAVRAS:
QUEIMÁ-LA? FUNDI-LA?
QUEM SABE SE UM BOM INCENSO,
MISTURA DE MUITAS PALAVRAS,
NÃO ME SUBA, DOS PÉS, QUEIMANDO,
ATÉ A CABEÇA,
FUNDINDO-SE,
E VIRE-A DE PONTA,
E EU PASSE A ADORAR
TODA PALAVRA INEFÁVEL.
CHICO VIVAS